Eu, largado em minha homossexualidade pulsante, meu tom de fala de gralha, o corpo peludo que só tocando, de uma magreza desengonçada e uma ansiedade do tamanho do mar. Eu, sentada em minha cadeira de madeira, de frente para o computador, fumando um cigarro, vários cigarros, descobrindo outros nomes, outras possibilidades, outras formas para aquilo que, aos poucos, vou descobrindo ser eu mesmo.
Eu e uma enorme e nova rede de conhecimento a ser explorada, devorada, contestada. Eu que me autoidentifico como gay quando politicamente conveniente para o combate, que sou travesti de alma, trans*sensível por posicionamento e atitude política, mulher por construção gestual e repetição natural daquilo que sempre entendi como casa, eu minha mãe, minhas madrinhas, minhas amigas e as divas da música popular brasileira. Eu, sentada em minha cama, abarrotada de livros e ideias, coçando as pernas por não poder coçar o ar, buscando entender o porque de tanto sofrimento, de tanta provocação e angústia.
Eu, mergulhada em uma piscina de purpurina, do gozo profundo do pau do cavalo garanhão, do tiro de champanhe barata, das borbulhas de amor e tesão ao som da música mais mela cueca brasileira da porra do mimimi hipster. Eu, embasbacada com tanta violência, armada em beleza monstruosa, em saltos-altos e mini saias, perucas desgrenhadas e próteses animalescas. Eu, rebolativa, fechativa, lacrativa, terceiro mundo, bicha, bichinha, boiola, viadona, viadão. Eu estou tentando entender a máquina para destruí-la por dentro. Aos poucos, mas destruí-la.