Sonho Alterosa é uma investigação cênico-científica-performa tiva-transviada-bizarra borrada pelo tensionamento que emerge do encontro de dois universos: a ambiência dos contos de fada e a resistência da bicha efeminada. O projeto teve início em junho de 2013 como parte integrante da pesquisa de doutorado do artista pesquisador Caio Riscado.
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quarta-feira, 11 de novembro de 2015
quinta-feira, 8 de outubro de 2015
Virando mochila - pré Berenice
- ãhn?
- aham
- ah, tá
- tá, eu sei
- não
- quê?
- hum
- uhum
- nunca
- 3 vezes
- mais ou menos
- um pouco
- sim
- ãnnnnnnn. sei lá
- foi
- tá.
- aham
- ah, tá
- tá, eu sei
- não
- quê?
- hum
- uhum
- nunca
- 3 vezes
- mais ou menos
- um pouco
- sim
- ãnnnnnnn. sei lá
- foi
- tá.
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Conversando com Berenice #3
As coisas, as coisas, as coisas nunca foram simples, Berenice. Por detrás de toda coisa há sempre uma coisa maior, um emaranhado de coisas embaralhadas que fazem com que a gente veja as coisas como as coisas são. Ou melhor, como parecem ser as coisas. Mas as coisas não são nada além do que foi projetado pra elas. O que eu quero dizer com isso, Berenice, é que nem tudo parece ser o que é; e tudo o que é, não é só o que parece. Compreende? Nada, coisa alguma, nada é sozinho. Tudo só é, só o pode ser porque está em relação. E é impossível definir a coisa, falar da coisa sem relacionå-la a outra coisa e assim por diante. Se cada coisa tem seu lugar, como dizem alguns, no lugar de cada coisa se alojam ainda milhares de outras coisinhas. É como se as coisas se desdobrassem para dentro delas mesmas: uma coisa carrega outra coisa, que é fruto de outra coisa que, por sua vez, só existe em razão de coisas outras. As coisas, em si, não podem ser examinadas se fora do seu contexto. Mas isso não quer dizer que precisemos buscar a origem das coisas. Assim como as coisas, suas origens também são ficções. E como toda ficção, as coisas não escapam de correntes de pensamento e/ou movimentos de construção e naturalização da história. O presente das coisas, Berenice, está para o futuro assim como continua estando para o passado. Uma coisinha de nada hoje, por exemplo, pode ser uma bomba de ontem e, na semana que vem, até deixar de ser coisa com a qual se preocupar. A verdade das coisas já é, por si só, uma falsa questão - universalizar as coisas é um projeto cruel que, para além de banalizar tudo o que é coisa, visa homogeneizar as coisas todas - coisificå-las em categorias, guetos, grupos, identidades e práticas. Ou seja, um sistema de dominação e higienização de todas as coisas. Mas nem tudo está perdido, pois as coisas resistem, Berenice, elas afirmam sua diferença, reivindicam o seu lugar, sua condição de coisa singular. Então as coisas se movimentam nessa direção. E, sabendo ser impossivel ser alguma coisa fora do sistema das coisas, as coisolas extrapolam os limites da oposição e pasam a resistir de dentro das próprias coisas. Coisas engajadas sabem que o ser coisa é sempre um estado de passagem, uma modificação, um acidente na paisagem e também no tempo. A relação espaço-temporal da coisa com as suas coisas é, então, operada como um projeto de vida, um fluxo coisa atravessado, poroso, mas consciente - a resistência como um extenso plano de negociação; onde o devir implica em prudência. Por fim, Berenice, vale ressaltar que apesar de todas as coisas, e assim como as coisas, você não está sozinha. Nós, Berenice, nós não somos minoria. Somos uma coisa inclassificável. Nós somos a multidão.
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segunda-feira, 5 de outubro de 2015
Conversando com Berenice
“Esse termo, abjeção, se refere ao espaço a que a coletividade costuma relegar aqueles e aquelas que considera uma ameaça ao seu bom funcionamento, à ordem social e política” (MISKOLCI, 2012, p. 24). A vivência da abjeção está inscrita nos corpos de todos aqueles e aquelas que não correspondem às expectativas do padrão dominante. São sujeitos que rompem com as normas de gênero, com o sistema binário generalizante, e por essa razão são cotidianamente atingidos pela violência física e simbólica gerada pela ordem sexual do presente: a heteronormatividade. Vale ressaltar que neste trabalho consideramos o termo abjeto como sinônimo da experiência que é tida como repulsiva, horrível, incompreensível, mas ainda assim catalogável. O sujeito abjeto não está além ou fora das categorias (re)conhecidas pela inteligibilidade social (JUNIOR, 2012). Explico: apesar de se desviar dos ditos “gêneros inteligíveis”, do masculino e do feminino, e ser tratado de forma inferiorizada, o sujeito abjeto não escapa de ser enquadrado pelo dominante em uma outra cela específica: a categoria de monstro. Nos limites deste trabalho, a categoria monstro, de existência rotulada como bizarra, pode ser também compreendida como um reflexo da retórica da diversidade que quer manter “cada um no seu quadrado”. A retórica da diversidade está atrelada à noção de tolerância e convívio, mantendo cada sujeito em um determinado grupo (ou gueto) criado a partir da catalogação de uma identidade ou prática sexual. Tolerar é diferente de reconhecer o outro, de valorizá-lo em sua especificidade, em sua diferença. Nesse mesmo sentido, a ideia de conviver com a diversidade também não significa reconhecê-la, pois a noção de diversidade fortalece a ideia de que uma parcela de pessoas se desvia da norma e, por isso, deve ser tolerada. Ou seja, o rótulo da diversidade só localiza o desviante porque antes considera um padrão, uma norma. E é a partir desse padrão que as outras identidades são classificadas e transformadas em monstruosas. A guetização dos corpos articula silenciosamente o plano de homogeneizar práticas e identidades, mantendo as relações de poder intocadas. Assim sendo, restam para a categoria dos monstros todos aqueles e aquelas que não se sentem representados pela política identitária universalista, que transgridem as homossexualidades já padronizadas e a ordem heteronormativa vigente. Por conta desse processo de desidentificação, esses sujeitos são desumanizados pelo dominante, relegados da sociedade e enclausurados no gueto do horror.
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