As coisas, as coisas, as coisas nunca foram simples, Berenice. Por detrás de toda coisa há sempre uma coisa maior, um emaranhado de coisas embaralhadas que fazem com que a gente veja as coisas como as coisas são. Ou melhor, como parecem ser as coisas. Mas as coisas não são nada além do que foi projetado pra elas. O que eu quero dizer com isso, Berenice, é que nem tudo parece ser o que é; e tudo o que é, não é só o que parece. Compreende? Nada, coisa alguma, nada é sozinho. Tudo só é, só o pode ser porque está em relação. E é impossível definir a coisa, falar da coisa sem relacionå-la a outra coisa e assim por diante. Se cada coisa tem seu lugar, como dizem alguns, no lugar de cada coisa se alojam ainda milhares de outras coisinhas. É como se as coisas se desdobrassem para dentro delas mesmas: uma coisa carrega outra coisa, que é fruto de outra coisa que, por sua vez, só existe em razão de coisas outras. As coisas, em si, não podem ser examinadas se fora do seu contexto. Mas isso não quer dizer que precisemos buscar a origem das coisas. Assim como as coisas, suas origens também são ficções. E como toda ficção, as coisas não escapam de correntes de pensamento e/ou movimentos de construção e naturalização da história. O presente das coisas, Berenice, está para o futuro assim como continua estando para o passado. Uma coisinha de nada hoje, por exemplo, pode ser uma bomba de ontem e, na semana que vem, até deixar de ser coisa com a qual se preocupar. A verdade das coisas já é, por si só, uma falsa questão - universalizar as coisas é um projeto cruel que, para além de banalizar tudo o que é coisa, visa homogeneizar as coisas todas - coisificå-las em categorias, guetos, grupos, identidades e práticas. Ou seja, um sistema de dominação e higienização de todas as coisas. Mas nem tudo está perdido, pois as coisas resistem, Berenice, elas afirmam sua diferença, reivindicam o seu lugar, sua condição de coisa singular. Então as coisas se movimentam nessa direção. E, sabendo ser impossivel ser alguma coisa fora do sistema das coisas, as coisolas extrapolam os limites da oposição e pasam a resistir de dentro das próprias coisas. Coisas engajadas sabem que o ser coisa é sempre um estado de passagem, uma modificação, um acidente na paisagem e também no tempo. A relação espaço-temporal da coisa com as suas coisas é, então, operada como um projeto de vida, um fluxo coisa atravessado, poroso, mas consciente - a resistência como um extenso plano de negociação; onde o devir implica em prudência. Por fim, Berenice, vale ressaltar que apesar de todas as coisas, e assim como as coisas, você não está sozinha. Nós, Berenice, nós não somos minoria. Somos uma coisa inclassificável. Nós somos a multidão.
Sonho Alterosa é uma investigação cênico-científica-performa tiva-transviada-bizarra borrada pelo tensionamento que emerge do encontro de dois universos: a ambiência dos contos de fada e a resistência da bicha efeminada. O projeto teve início em junho de 2013 como parte integrante da pesquisa de doutorado do artista pesquisador Caio Riscado.
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