Sonho Alterosa é uma investigação cênico-científica-performativa-transviada-bizarra borrada pelo tensionamento que emerge do encontro de dois universos: a ambiência dos contos de fada e a resistência da bicha efeminada. O projeto teve início em junho de 2013 como parte integrante da pesquisa de doutorado do artista pesquisador Caio Riscado.
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segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

MANIFESTO (Falo pela minha diferença) de Pedro Lemebel. Tradução de Alejandra Rojas C.

Não sou Pasolini pedindo explicações
Não sou Ginsberg expulso de Cuba
Não sou uma bicha fantasiada de poeta
Não preciso de fantasia
Aqui está a minha cara
Falo pela minha diferença
Defendo o que sou
E não sou tão estranho
Me aborrece a injustiça
E suspeito desta lenga-lenga democrática
Mas não me fale do proletariado
Porque ser bicha e pobre é pior
É preciso ser ácido para suportá-lo
É dar a volta nos machões da esquina
É um pai que te odeia
Porque o filho requebra o pezinho
É ter uma mãe com as mãos rachadas pela água sanitária
Envelhecidas de limpeza
Embalando-me no colo quando doente
Por maus costumes
Pela má sorte
Como a ditadura
Pior que a ditadura
Porque a ditadura passa
E vem a democracia
E logo atrás vem o socialismo
E então?
O que farão conosco companheiro?
Nos amarrarão pelas tranças em fardos
Com destino a um sanatório de aidéticos em Cuba?
Nos enfiarão em algum trem a lugar nenhum
Como no navio do General Ibañez*
Onde aprendemos a nadar
Mas ninguém chegou à praia
Por isso Valparaíso apagou suas luzes vermelhas
Por isso as casas de tolerância
brindaram uma lágrima negra
Às bichas devoradas pelos caranguejos
Esse ano que Comissão dos Direitos Humanos não quer lembrar
Por isso, companheiro, lhe pergunto
Existe ainda o trem siberiano da propaganda reacionária?
Esse trem que passa por suas pupilas
Quando a minha voz fica doce demais
E você?
O que fará com a lembrança dessas crianças
Batendo punheta e mais outras coisas nas férias em Cartagena?
O futuro será preto e branco?
O tempo em noite e o dia de trabalho sem ambiguidades?
Não haverá uma bicha em alguma esquina
Desequilibrando o futuro do seu homem?
Nos deixarão bordar de pássaros as bandeiras da pátria livre?
O fuzil fica com você
Que tem sangue frio
E não é medo não
O medo foi passando
De tanto esquivar facas
Nos porões sexuais por onde andei
E não se sinta agredido
Se lhe falo dessas coisas
E olho para seu volume dentro da calça
Não sou hipócrita
Acaso as tetas de uma mulher não desviam seu olhar?
Você não acha que sozinhos na serra alguma coisa haveria de nos ocorrer?
Mesmo que depois sinta ódio de mim
Por corromper sua moral revolucionária
Você tem medo de que se homossexualize a vida?
E não falo apenas de enfiar e tirar
Tirar e enfiar
Falo de ternura, companheiro
Você não sabe
O quanto custa encontrar o amor
Nestas condições
Você não sabe
O que é carregar esta lepra
As pessoas guardam distância
As pessoas compreendem e dizem:
É bicha, mas escreve bem
É bicha, mas é um bom amigo
É um cara legal
Eu não sou um cara legal
Eu aceito o mundo
Sem pedir que seja legal
Mesmo assim eles riem
Tenho cicatrizes de risos nas costas
Você acha que penso com a bunda
E que no primeiro ‘pau de arara’ da CNI
Entregaria os meus amigos
Você sabe que a hombridade
Não a aprendi nos quartéis
Foi a noite quem me ensinou a hombridade
Atrás de um poste
Essa hombridade da qual você se gaba
Você a aprendeu no quartel
De um ‘milico’ assassino
Desses que ainda estão no poder
A minha hombridade não a recebi do partido
Porque fui rejeitado com risadinhas
Muitas vezes
Aprendi a minha hombridade participando
Na dureza desses anos
E riram da minha voz de bichinha que gritava: já vai cair, já vai cair
E mesmo que você grite como homem
Ainda não conseguiu mandá-lo embora
Minha hombridade foi a mordaça
Não foi ir ao estádio
E brigar a socos por causa do Colo-Colo
O futebol é outra homossexualidade velada
Assim como o boxe, a política e o vinho
A minha hombridade foi morder as zombarias
Comer raiva para não matar todo mundo
Minha hombridade é me aceitar diferente
Ser covarde é muito mais duro
Não ofereço a outra face
Ofereço a bunda, companheiro
E essa é a minha vingança
Minha hombridade espera paciente
Que os machos fiquem velhos
Porque a essa altura do partido
A esquerda negocia sua bunda murcha
No parlamento
Minha hombridade foi difícil
Por isso nesse trem não embarco
Sem saber para onde vai
Não vou mudar pelo marxismo
Que tantas vezes me rejeitou
Não preciso mudar
Sou mais subversivo que você
Se dá conta?
Não vou mudar apenas
Porque os pobres e os ricos…
Não me venha com essa
Nem porque o capitalismo é injusto
Em Nova Iorque as bichas se beijam nas ruas
Mas essa parte fica para você
Que tanto lhe interessa
Que a revolução não apodreça totalmente
Para você vai esta mensagem
E não é por mim
Eu estou velho
E sua utopia é para as futuras gerações
Há tantas crianças que nascerão
com uma asinha quebrada
E eu quero que elas voem, companheiro
Que sua revolução
Lhes dê um pedaço de céu vermelho
Para que possam voar.
NOTA: Este texto foi lido como intervenção em um ato político da esquerda chilena, em setembro de 1986, ao cumprirem-se 13 anos do golpe militar, em Santiago do Chile.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

"Sonho com o dia em que os poemas de amor de homem para outro homem serão apenas isso: poemas de amor de um homem para outro homem. Mas em um país como o Brasil e num tempo como o nosso, poemas de amor de um homem para outro homem têm implicações políticas inescapáveis, portanto trabalho com isso em mente. Até mesmo lançar uma antologia da poesia homoerótica grega hoje em dia teria implicação política completamente inexistente no contexto original dos poemas"

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Piazzoleando

Perdi-me muitas vezes pelo mar
Com o ouvido cheio de flores recém-cortadas
Com a língua, cheia de amor e de agonia
Muitas vezes me perdi pelo mar
Como me perco no coração de alguns meninos
Porque as rosas buscam em frente
Uma dura paisagem de osso
E as mão do homem não tem mais sentido
Que imitar as raízes sobre a terra
Como me perco no coração de alguns meninos
Perdi-me muitas vezes pelo mar
Ignorante da água
Vou buscando uma morte de luz que me consuma



Federico García Lorca

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Conta a lenda que dormia
uma Princesa encantada
a quem só despertaria
um Infante, que viria
de além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
vencer o mal e o bem,
antes que, já libertado,
deixasse o caminho errado
por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
e orna-lhe a fronte esquecida,
verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
sem saber que intuito tem,
rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino –
ela dormindo encantada,
ele buscando-a sem tino
pelo processo divino
que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
tudo pela estrada fora,
e falso, ele vem seguro,
e, vencendo estrada e muro,
chega onde em sono ela mora.
E, inda tonto do que houvera,
à cabeça, em maresia,
ergue a mão, e encontra hera,
e vê que ele mesmo era
a Princesa que dormia.
Fernando Pessoa

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

A BALADA DOS AFEMINADOS - CHARLES BERNSTEIN / TRAD. SANDRO ORNELLAS

A verdade jaz debaixo do choro
Com o medo, a casca do luto vira couro

Uma democracia adulta
Definha e se torna suja
Por brutamontes que odiar
Preferem em lugar de rimar

As quatro letras da complexidade
Para os que têm e não têm
Mentir dados de Darwin
E endeusar o que Halliburton diz

A verdade jaz debaixo do choro
Com o medo, a casca do luto vira couro

Bandidos roubam o estoque de liberdade
O rico ganha palmas, o pobre, sete palmos
E o deus que abençoa isso
Não é deus, é discurso vazio

Então seja afeminado
Assuma um jeito viado
Cante uma canção libertina
E dance com saia de menina

Poesia não vence a guerra contra o terror
Mas também não repete o erro do horror

Nós afeminados não tememos
Razão, interdependência ou incerteza
Usamos antes e depois da luta a cabeça
Rezamos por bom senso, arte e compromisso

Então seja um afeminado
Cante essa canção libertina
Maricas e altivos
Nunca fugiríamos da guerra

Afeminados mataram cristo
Diz o DVD Platinum
Judeus, negros e gays
Aguardam sua vez

Desculpe-nos, matamos seu deus
Há muito, muito tempo atrás
Mas cada soldado morto no Iraque
Mata o deus interior que ainda vive

A verdade jaz debaixo do choro
Com o medo, a casca do luto vira couro

Então seja afeminado
Assuma um jeito viado
Cante uma canção libertina
E dance com saia de menina

Bandidos roubam o estoque de liberdade
O rico ganha palmas, o pobre, sete palmos
E o deus que abençoa isso
Não é deus, é discurso vazio

Então seja um afeminado
Cante essa canção libertina
Maricas e altivos
Nunca fugiríamos da guerra

Com o medo, a casca do luto vira couro
A verdade jaz debaixo do choro

* “Girly Men” foi a expressão que o então governador da Califórnia – Arnold Schwarzenegger – usou para se referir a quem era contra a chamada “Guerra ao Terror”.


ORIGINALMENTE POSTADO EM:
http://sandroornellasblogue.wordpress.com/2012/12/30/a-balada-dos-afeminados/

terça-feira, 5 de maio de 2015

Estatuto

ESTATUTO
Ser bicha é ser enquadrado
no inciso C
do parágrafo terceiro 
do artigo 24
da lei de segurança inter
nacional.
É ter medo à flor da pele,
é ter a língua ferida,
a boca rubra,
o beijo fácil,
o amor saindo pelos poros.
Ser bicha é um estado de espírito,
de choque, de sítio,
de graça.
Como o artista pinta seu quadro,
como a luz que filtra
a janela do quarto
a lua bojuda no céu.
Ser bicha: ser inspecionado,
é ter revirado o passado
e investigado o medo –
subindo o cheiro saudoso
dos primeiros tempos.
É a polícia, acesa e trêmula
no encalço do baitola
amedrontado.
Ser bicha é ser metade gente,
a outra metade - o povo,
gargalha garganta a dentro
ri e galhofeiro.
É Ter parte com o demônio,
aprendiz de feiticeiro.
É estar entre, no meio, ser meta-de
Outros homens.
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Poema do potiguar Paulo Augusto, publicado em 1976.