Sonho Alterosa é uma investigação cênico-científica-performativa-transviada-bizarra borrada pelo tensionamento que emerge do encontro de dois universos: a ambiência dos contos de fada e a resistência da bicha efeminada. O projeto teve início em junho de 2013 como parte integrante da pesquisa de doutorado do artista pesquisador Caio Riscado.
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quarta-feira, 26 de outubro de 2016

"Sonho com o dia em que os poemas de amor de homem para outro homem serão apenas isso: poemas de amor de um homem para outro homem. Mas em um país como o Brasil e num tempo como o nosso, poemas de amor de um homem para outro homem têm implicações políticas inescapáveis, portanto trabalho com isso em mente. Até mesmo lançar uma antologia da poesia homoerótica grega hoje em dia teria implicação política completamente inexistente no contexto original dos poemas"

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Conta a lenda que dormia
uma Princesa encantada
a quem só despertaria
um Infante, que viria
de além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
vencer o mal e o bem,
antes que, já libertado,
deixasse o caminho errado
por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
e orna-lhe a fronte esquecida,
verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
sem saber que intuito tem,
rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino –
ela dormindo encantada,
ele buscando-a sem tino
pelo processo divino
que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
tudo pela estrada fora,
e falso, ele vem seguro,
e, vencendo estrada e muro,
chega onde em sono ela mora.
E, inda tonto do que houvera,
à cabeça, em maresia,
ergue a mão, e encontra hera,
e vê que ele mesmo era
a Princesa que dormia.
Fernando Pessoa

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Retrato #2 - Princesa


Liguei a TV no dia 01 de Setembro de 2015.
Ela dizia que hoje tudo mudou.
Hoje mulheres podem ser "alguma coisa que elas não são habitualmente".
E hoje homens podem ser princesas.

Será?

Fiquei pensando em Alterosa.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Sonhado antes.

aí foi quando eu descobri que esse sonho não era meu. quer dizer, quando eu descobri que ele não era só meu. ou melhor, que ele já havia sido sonhado antes, formulado antes, formatado e construído. ele, o sonho, era então um apanhado de projetos, um rede perversa de significados congelados, de sentidos possuídos e formas pré-determinadas. o sonho não era meu e nem seu. ele só poderia ser nosso se o aceitássemos por completo. aí foi quando eu descobri que o sonho era um produto, um objeto de desejo criado pelo mercado, uma plataforma de produção de subjetividade controlada, um cárcere privado. sonhar não tinha mais graça, não tinha mais cor pois não tinha ruído. tudo no sonho era programado, calculado. a fantasia não era minha mas pensada intencionalmente para mim. sua dose onírica só tinha bolhinhas no primeiro gole. depois, a sensação era de ressaca: boca seca, olhos marejados, corpo cansado. do convite para o baile ao beijo final, tudo trapaça, armação, esquema. o sonho era um arquivo fechado, uma falsa promessa de futuro, golpe dos brabos. foi aí que eu também percebi que era preciso sonhar menor para poder sonhar o possível. 

- sua majestade, o sonho! 
- cortem-lhe a cabeça!