aí foi quando eu descobri que esse sonho não era meu. quer dizer, quando eu descobri que ele não era só meu. ou melhor, que ele já havia sido sonhado antes, formulado antes, formatado e construído. ele, o sonho, era então um apanhado de projetos, um rede perversa de significados congelados, de sentidos possuídos e formas pré-determinadas. o sonho não era meu e nem seu. ele só poderia ser nosso se o aceitássemos por completo. aí foi quando eu descobri que o sonho era um produto, um objeto de desejo criado pelo mercado, uma plataforma de produção de subjetividade controlada, um cárcere privado. sonhar não tinha mais graça, não tinha mais cor pois não tinha ruído. tudo no sonho era programado, calculado. a fantasia não era minha mas pensada intencionalmente para mim. sua dose onírica só tinha bolhinhas no primeiro gole. depois, a sensação era de ressaca: boca seca, olhos marejados, corpo cansado. do convite para o baile ao beijo final, tudo trapaça, armação, esquema. o sonho era um arquivo fechado, uma falsa promessa de futuro, golpe dos brabos. foi aí que eu também percebi que era preciso sonhar menor para poder sonhar o possível.
- sua majestade, o sonho!
- cortem-lhe a cabeça!
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