Sonho Alterosa é uma investigação cênico-científica-performa tiva-transviada-bizarra borrada pelo tensionamento que emerge do encontro de dois universos: a ambiência dos contos de fada e a resistência da bicha efeminada. O projeto teve início em junho de 2013 como parte integrante da pesquisa de doutorado do artista pesquisador Caio Riscado.
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terça-feira, 27 de outubro de 2015
quinta-feira, 8 de outubro de 2015
Virando mochila - pré Berenice
- ãhn?
- aham
- ah, tá
- tá, eu sei
- não
- quê?
- hum
- uhum
- nunca
- 3 vezes
- mais ou menos
- um pouco
- sim
- ãnnnnnnn. sei lá
- foi
- tá.
- aham
- ah, tá
- tá, eu sei
- não
- quê?
- hum
- uhum
- nunca
- 3 vezes
- mais ou menos
- um pouco
- sim
- ãnnnnnnn. sei lá
- foi
- tá.
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Conversando com Berenice #3
As coisas, as coisas, as coisas nunca foram simples, Berenice. Por detrás de toda coisa há sempre uma coisa maior, um emaranhado de coisas embaralhadas que fazem com que a gente veja as coisas como as coisas são. Ou melhor, como parecem ser as coisas. Mas as coisas não são nada além do que foi projetado pra elas. O que eu quero dizer com isso, Berenice, é que nem tudo parece ser o que é; e tudo o que é, não é só o que parece. Compreende? Nada, coisa alguma, nada é sozinho. Tudo só é, só o pode ser porque está em relação. E é impossível definir a coisa, falar da coisa sem relacionå-la a outra coisa e assim por diante. Se cada coisa tem seu lugar, como dizem alguns, no lugar de cada coisa se alojam ainda milhares de outras coisinhas. É como se as coisas se desdobrassem para dentro delas mesmas: uma coisa carrega outra coisa, que é fruto de outra coisa que, por sua vez, só existe em razão de coisas outras. As coisas, em si, não podem ser examinadas se fora do seu contexto. Mas isso não quer dizer que precisemos buscar a origem das coisas. Assim como as coisas, suas origens também são ficções. E como toda ficção, as coisas não escapam de correntes de pensamento e/ou movimentos de construção e naturalização da história. O presente das coisas, Berenice, está para o futuro assim como continua estando para o passado. Uma coisinha de nada hoje, por exemplo, pode ser uma bomba de ontem e, na semana que vem, até deixar de ser coisa com a qual se preocupar. A verdade das coisas já é, por si só, uma falsa questão - universalizar as coisas é um projeto cruel que, para além de banalizar tudo o que é coisa, visa homogeneizar as coisas todas - coisificå-las em categorias, guetos, grupos, identidades e práticas. Ou seja, um sistema de dominação e higienização de todas as coisas. Mas nem tudo está perdido, pois as coisas resistem, Berenice, elas afirmam sua diferença, reivindicam o seu lugar, sua condição de coisa singular. Então as coisas se movimentam nessa direção. E, sabendo ser impossivel ser alguma coisa fora do sistema das coisas, as coisolas extrapolam os limites da oposição e pasam a resistir de dentro das próprias coisas. Coisas engajadas sabem que o ser coisa é sempre um estado de passagem, uma modificação, um acidente na paisagem e também no tempo. A relação espaço-temporal da coisa com as suas coisas é, então, operada como um projeto de vida, um fluxo coisa atravessado, poroso, mas consciente - a resistência como um extenso plano de negociação; onde o devir implica em prudência. Por fim, Berenice, vale ressaltar que apesar de todas as coisas, e assim como as coisas, você não está sozinha. Nós, Berenice, nós não somos minoria. Somos uma coisa inclassificável. Nós somos a multidão.
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segunda-feira, 5 de outubro de 2015
Conversando com Berenice
“Esse termo, abjeção, se refere ao espaço a que a coletividade costuma relegar aqueles e aquelas que considera uma ameaça ao seu bom funcionamento, à ordem social e política” (MISKOLCI, 2012, p. 24). A vivência da abjeção está inscrita nos corpos de todos aqueles e aquelas que não correspondem às expectativas do padrão dominante. São sujeitos que rompem com as normas de gênero, com o sistema binário generalizante, e por essa razão são cotidianamente atingidos pela violência física e simbólica gerada pela ordem sexual do presente: a heteronormatividade. Vale ressaltar que neste trabalho consideramos o termo abjeto como sinônimo da experiência que é tida como repulsiva, horrível, incompreensível, mas ainda assim catalogável. O sujeito abjeto não está além ou fora das categorias (re)conhecidas pela inteligibilidade social (JUNIOR, 2012). Explico: apesar de se desviar dos ditos “gêneros inteligíveis”, do masculino e do feminino, e ser tratado de forma inferiorizada, o sujeito abjeto não escapa de ser enquadrado pelo dominante em uma outra cela específica: a categoria de monstro. Nos limites deste trabalho, a categoria monstro, de existência rotulada como bizarra, pode ser também compreendida como um reflexo da retórica da diversidade que quer manter “cada um no seu quadrado”. A retórica da diversidade está atrelada à noção de tolerância e convívio, mantendo cada sujeito em um determinado grupo (ou gueto) criado a partir da catalogação de uma identidade ou prática sexual. Tolerar é diferente de reconhecer o outro, de valorizá-lo em sua especificidade, em sua diferença. Nesse mesmo sentido, a ideia de conviver com a diversidade também não significa reconhecê-la, pois a noção de diversidade fortalece a ideia de que uma parcela de pessoas se desvia da norma e, por isso, deve ser tolerada. Ou seja, o rótulo da diversidade só localiza o desviante porque antes considera um padrão, uma norma. E é a partir desse padrão que as outras identidades são classificadas e transformadas em monstruosas. A guetização dos corpos articula silenciosamente o plano de homogeneizar práticas e identidades, mantendo as relações de poder intocadas. Assim sendo, restam para a categoria dos monstros todos aqueles e aquelas que não se sentem representados pela política identitária universalista, que transgridem as homossexualidades já padronizadas e a ordem heteronormativa vigente. Por conta desse processo de desidentificação, esses sujeitos são desumanizados pelo dominante, relegados da sociedade e enclausurados no gueto do horror.
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segunda-feira, 28 de setembro de 2015
A homofobia...
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terça-feira, 15 de setembro de 2015
esquece
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quinta-feira, 3 de setembro de 2015
Memória #1 - Não tinha como não lembrar
E como eu poderia não estar feliz?
Toda toda, cheia de roupa
Voltando da Disney
Num hotel cafona de Orlando.
Toda toda, cheia de roupa
Voltando da Disney
Num hotel cafona de Orlando.
terça-feira, 1 de setembro de 2015
Retrato #2 - Princesa
Liguei a TV no dia 01 de Setembro de 2015.
Ela dizia que hoje tudo mudou.
Hoje mulheres podem ser "alguma coisa que elas não são habitualmente".
E hoje homens podem ser princesas.
Será?
Fiquei pensando em Alterosa.
quinta-feira, 27 de agosto de 2015
quarta-feira, 26 de agosto de 2015
roteiro de partitura
mão pra trás
direita frentre
olho: 1 - 2 - 3 - 4 -5
mão, armou - castelo
portão, braço - cintura
olhar
ponte - perna esquerda arrastando
olhar pra baixo
braços abertos - rio
pegou a saia - jardim - corrididnha / enorme - soltou a saia
braço (colorido) braço (arejado)
flores raras - mãos
não - solta
ombro / aqui
espelho
1 orquidário - cabelo
pinheiro - cabeça
fonte
deleite
chua chua pra trás no espelho
querendo...
saia, reverência
direita frentre
olho: 1 - 2 - 3 - 4 -5
mão, armou - castelo
portão, braço - cintura
olhar
ponte - perna esquerda arrastando
olhar pra baixo
braços abertos - rio
pegou a saia - jardim - corrididnha / enorme - soltou a saia
braço (colorido) braço (arejado)
flores raras - mãos
não - solta
ombro / aqui
espelho
1 orquidário - cabelo
pinheiro - cabeça
fonte
deleite
chua chua pra trás no espelho
querendo...
saia, reverência
terça-feira, 11 de agosto de 2015
Da maior importância
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terça-feira, 14 de julho de 2015
Meu cu
"E nessa guerra travada contra mim, uma criança efeminada (SEDGWICK, 1991), havia um exército de afetação que poderia me salvar?"
Quando se tem quatorze anos e o seu corpo não corresponde ou obedece às pedagogias de masculinização, o embate é cotidiano. Em casa, na escola e na rua. A rua é, por excelência, o espaço onde essa marca da diferença é ressaltada sem o consolo de voltar ao lar, pedir colo e contar à mãe e ao pai as coisas horríveis que nos disseram. Demorou uns anos para eu aprender a revidar como a Paulette de Tatuagem (2013, Hilton Lacerda): “Tu descobristes o mundo?”. Transformar-se em Jacira é um processo longo, doloroso e solitário. Se quando eu era uma mocinha tivesse visto meia dúzia de vídeos no youtube e memes, Madame Satã (2002, Karim Aïnouz) ou Paris is Burning (1990, Jennie Livingston), eu não pediria a Deus pela morte, eu rezaria para ser assim, fabulosa.
Além de bicha, outra palavra temida por mim era o cu. Quando mocinha, eu não conhecia o trabalho
do professor Guy Hocquenghem, logo eu não poderia imaginar que o cu era revolucionário. Mas sempre me perguntei o porquê de tudo acabar no cu. Tomar no cu, enfiar no cu, vigiar o cu. Somos obcecados pelos “cus” alheios. Em que pese os elementos acachapantes dados ao cu, uma outra injustiça delegada ao campo da nossa reconstrução subjetiva é nos definirem como um grande cu, expelindo o abjeto e o espúrio. Que delícia poderia ser um cu não normatizado, livre de barreiras higienistas e com a atribuição de comportar todos os políticos corruptos ou indecentes de nosso país. No cu não Brasil, sempre pensava ao ouvir um “ei fulano, vai tomar no cu”. Precisamos de cus milagrosos, como o de Thiaga2, musa do Facebook. Ou o cu da Tabu, de Madame Satã" (p.103).
"É preciso muita ferveção para se levantar da cama e seguir a vida. Tomamos as ruas, botamos a cara no sol, brilhamos nas praças com purpurina e ao som de “Faraó, Divindade do Egypto... E maramaramara maravilha ê”. Mas ainda olhamos, atônitos, pessoas transhumilhadas e violentadas, física e simbolicamente. Na vala comum da memória são enterrados tantos corpos, tantas lutas e vozes...Tantos afetos que se despedaçam e viram paixões tristes. O ódio à criança efeminada ou à menina masculinizada se aproxima agora de nossos corpos adultos. Somos nós, os próximos?" (p.104).
"A homofobia tão de perto, tão do nosso lado, denuncia a nossa fragilidade e vulnerabilidade. Um mundo onde apenas o existir fora dos marcos da performance heterossexual é suficiente para que você morra. Onde o corpo revela as marcas de sua sexualidade e essas marcas podem despertar atitudes brutais, que ceifam vidas, apagam sorrisos" (p.104).
"Somos estranhas, diferentes, guerrilheiras e pão com ovo. Nossas armas são nossos corpos, nossos sonhos e nosso mundo. Descolonizar nossos corpos, nossos cus e nossos desejos. Despir-nos dos privilégios, da brancura, do consumo e do sexo baunilha são nossos desafios. Transformarmo-nos em Manas de cus, uma teia de solidariedade e de afetos anais. Buscar uma Justiça erótica, como já nos disse Gayle Rubin (1989). Que o nosso cu não nos defina, mas que nos impulsione para a vida" (p.105).
RIBEIRO, Vinicios. Meu cu faz milagre ou Je suis Jaciras.
New Queer Cinema, 2015.
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segunda-feira, 6 de julho de 2015
Posso pular essa?
O corpo guarda tudo. Passado, presente, futuro. O corpo guarda tudo. Seu cheiro, sua boca, seu sorriso e suas dobras. Seu papo furado, seu ar intelectual, andar engraçado, quase descompromissado. Sei de cada esquina sua, cada aperto meu, todo canto nosso. Sei da rua nova, da mudança atravessada pelo tempo, dos livros ainda dentro das caixas e da mesa que volta, ainda esse mês, pra casa dos seus pais. Suco de laranja de caixinha na geladeira - eu jamais acertaria. Você me surpreende as vezes. Onde a pia faz esquina, o mármore frio, minha mão gelada e uma conversa sobre arranhões. Acho que bebi uns cincos copos dágua por medo de não saber o que dizer. Me excitei. Fiquei de pau duro. A incerteza me desconcerta. O barulho do filtro era estranho, ele começava a gemer antes da água sair. O filtro anunciava o esforço, o trabalho, o caminho percorrido pela água até o copo. Processo de purificação - de alta qualidade - com adesivo de garantia e tudo. Tem nome esse artista? É meu você responde e eu, mais uma vez, finjo não saber o que dizer. As poltronas velhas, o verde das plantas e a luminária com dois corações - um rosa e o outro, é claro, azul. Penso em discordar, em dizer que é um objeto repugnante, que sugere uma série de mentiras sobre o amor e sobre o encontro de duas pessoas. Mas penso que encontros podem se dar com mais de duas pessoas e não digo nada. Tem duas pastas de dentes novas no banheiro mas não tem escova extra. Não recebe ninguém, a casa não está preparada para o inesperado. Diz que se eu for de noite também vai gostar. Vou só de madrugada, prefiro a escuridão. Depois da cerveja tem vinho. Não quero. Gim tônica. Quero pouco, fico louca fácil, não quero perder as imagens. Não dorme aqui que a mãe vem amanhã cedo e junto dela a avó. Não durmo. Não quero família nem apresentações. Quero seus braços, seu corpo se contorcendo, pedindo mais, suportando pouco. Os mais novos são mais resistentes. Do que ele está falando? Os quadros no chão revelam a ideia de uma decoração que ainda está para ser. Tudo lá é assim, muito diferente de como é aqui. Lá tem cara de projeto, aqui tem cara de agenda. Seu cabelo está grande, ouve essa música aqui, não gosta da nova rainha dos raios. Diz que sou bem vindo de volta, que pensou muitas vezes nisso - nisso de nos termos de novo. E você, pensou? Na hora não lembro, não sei, não sei se prefiro lembrar que um dia... Cinco e quarenta da manhã. O tempo sempre passou depressa com a gente. Nunca vou me esquecer da primeira vez que lhe deixei ir embora, da carona no carro, da traição na piscina e do flerte quase infantil no supermercado. Eu nunca gostei de arranhões mas você me diz com tanta certeza que eu quase acredito, mudo de opinião. Todas as tatuagens eram novas apesar do desbotado das cores. Você devia ter cortado o cabelo essa semana. Pede um táxi, me ensina o caminho, péra, não precisa. Aqui é perto dá pra ir andando. Vou de táxi, cê sabe. Amanhã a gente vai no fazendinha, vê se aparece. Vejo. Apareço. Desço de escada. O porteiro tem o rosto deformado mas é lindo. Meu dels, que homem lindo. Ele sorri, eu digo bom dia. Ele diz que tá frio essa manhã. Eu sinto.
terça-feira, 4 de novembro de 2014
"Disabeld Theater", de Jérôme Bel.
Corpos movendo impulsos patologizados pelas ciências médicas e "psis". Corpos movendo singularidades, desvios da norma reguladora, da política dos corpos "normais", da polícia dos corpos saudáveis. O riso que vem da platéia, as centenas de aplausos em cena aberta e os gritos de aprovação... Tudo isso vem de onde? Eu também estava lá e por vezes também estava rindo. Não me excluo da reflexão. Sou uma pessoa em movimento, buscando pelo aprimoramento das minhas ideias e posicionamento político. A massa assistia aos "desabilitados" e parecia impor-lhes o seu desejo por superação. Façamos a pergunta: quem está superando e o quê está em jogo? O circo está no palco ou nas cadeiras da platéia abarrotada de corpos também imperfeitos mas retocados e maquiados? Rir do outro mas sem o outro? Queria ter rido mais COM do que DE. Rimos por aflição, desconforto, pena, aprovação? Será mesmo preciso do palco para destacar esses corpos e mostrar que eles também passam pelas ruas, bairros, cidades, meios de transporte? Será mesmo preciso da caixa preta, dessa separação palco-plateia para compreendermos que não somos todos iguais mas sim potencialmente diferentes? Como falar das diferenças sem exotizá-las? Até que ponto expor o oprimido não é (re)afirmar o lugar do opressor? O que me conforta é que pude perceber, mesmo que superficialmente, que os atores do espetáculo "Disabled Theater", de Jérôme Bel, parecem estar a vontade e se divertindo em cena. Além de tudo o que podemos dizer, cabe somente aos artistas decidirem como querem se expressar e em que tipo de obra querem estar. Não se trata de gostar ou não do espetáculo, mas de transformar cada microgargalhada em uma macroreflexão. Jérôme Bel fez sua tentativa. E toda tentativa é um convite para o nascimento de outras. Eu gosto assim.
- precisei dividir. tá remexendo aqui dentro até agora.
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