Sonho Alterosa é uma investigação cênico-científica-performativa-transviada-bizarra borrada pelo tensionamento que emerge do encontro de dois universos: a ambiência dos contos de fada e a resistência da bicha efeminada. O projeto teve início em junho de 2013 como parte integrante da pesquisa de doutorado do artista pesquisador Caio Riscado.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Conversando com Berenice

“Esse termo, abjeção, se refere ao espaço a que a coletividade costuma relegar aqueles e aquelas que considera uma ameaça ao seu bom funcionamento, à ordem social e política” (MISKOLCI, 2012, p. 24). A vivência da abjeção está inscrita nos corpos de todos aqueles e aquelas que não correspondem às expectativas do padrão dominante. São sujeitos que rompem com as normas de gênero, com o sistema binário generalizante, e por essa razão são cotidianamente atingidos pela violência física e simbólica gerada pela ordem sexual do presente: a heteronormatividade. Vale ressaltar que neste trabalho consideramos o termo abjeto como sinônimo da experiência que é tida como repulsiva, horrível, incompreensível, mas ainda assim catalogável. O sujeito abjeto não está além ou fora das categorias (re)conhecidas pela inteligibilidade social (JUNIOR, 2012). Explico: apesar de se desviar dos ditos “gêneros inteligíveis”, do masculino e do feminino, e ser tratado de forma inferiorizada, o sujeito abjeto não escapa de ser enquadrado pelo dominante em uma outra cela específica: a categoria de monstro.  Nos limites deste trabalho, a categoria monstro, de existência rotulada como bizarra, pode ser também compreendida como um reflexo da retórica da diversidade que quer manter “cada um no seu quadrado”. A retórica da diversidade está atrelada à noção de tolerância e convívio, mantendo cada sujeito em um determinado grupo (ou gueto) criado a partir da catalogação de uma identidade ou prática sexual. Tolerar é diferente de reconhecer o outro, de valorizá-lo em sua especificidade, em sua diferença. Nesse mesmo sentido, a ideia de conviver com a diversidade também não significa reconhecê-la, pois a noção de diversidade fortalece a ideia de que uma parcela de pessoas se desvia da norma e, por isso, deve ser tolerada. Ou seja, o rótulo da diversidade só localiza o desviante porque antes considera um padrão, uma norma. E é a partir desse padrão que as outras identidades são classificadas e transformadas em monstruosas. A guetização dos corpos articula silenciosamente o plano de homogeneizar práticas e identidades, mantendo as relações de poder intocadas. Assim sendo, restam para a categoria dos monstros todos aqueles e aquelas que não se sentem representados pela política identitária universalista, que transgridem as homossexualidades já padronizadas e a ordem heteronormativa vigente. Por conta desse processo de desidentificação, esses sujeitos são desumanizados pelo dominante, relegados da sociedade e enclausurados no gueto do horror.

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