Sonho Alterosa é uma investigação cênico-científica-performativa-transviada-bizarra borrada pelo tensionamento que emerge do encontro de dois universos: a ambiência dos contos de fada e a resistência da bicha efeminada. O projeto teve início em junho de 2013 como parte integrante da pesquisa de doutorado do artista pesquisador Caio Riscado.
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sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Ação: o beijo.

Para o momento da ação do beijo ainda considero retomar o programa performativo que criei para Só Não Viu Quem Não Quis.

Performance: O beijo.

Programa: o performer convidará para cada dia de apresentação do espetáculo um outro performer de sua escolha para participar da performance. Em um momento combinado entre os dois, o performer convidado entra no espaço e eles se beijam ininterruptamente por cinco minutos. Ao final do tempo estipulado, o performer convidado deixa o espaço.

Para cada apresentação um performer, um novo beijo, uma nova troca de saliva, tesão, toque, energia, vontade, desejo e violência.

Vídeo-performance: o beijo.

Para o momento do beijo, quando o material do "espaço para uma ação ética" de Só Não Viu Quem Não Quis for retomado, pensei em fazer um vídeo para a projeção que, de alguma forma, seja um desdobramento do vídeo que já fizemos com o Bernardo.

Ideia: convidar as amigas drags para gravar o vídeo-performance do beijo. Uma de cada vez, as drags entram no "espaço" e nós nos beijamos. Durante o beijo, pela violência que é própria ao ato de beijar com vontade outra pessoa, pensei em ir despindo as drags e desfazendo suas maquiagens. A partir do contato entre nossos corpos, eu, que não estaria montado, sairia da ação sujo, carregando vestígios da maquiagem das drags em meu rosto. O objetivo de desmontar as drags durante uma ação de beijo na boca tem, para mim, diferentes significados: a) a passagem da maquiagem e montação delas para o meu corpo exibe o desejo por corpos e identidades transitórias, que seguem borrando a paisagem e afetando aqueles e aquelas com quem tem contato; b) desfazer a drag é também um elogio a (des)montagem como valorização do processo de um eterno movimento daquilo que sempre retorna para ser, do que se (re)produz em arte; c) a ação cria uma espécie de relação questionadora quando, ao final, levanta a questão: quem está montado? o que é a montaria? quando ela começa e quando termina? não estamos todos nós, frequentemente, montados?

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Trans*corrimento Xoxotaço.

Ao longo do processo de criação e pesquisa de Sonho Alterosa me comprometi a fazer uma série de performances variadas que tem por objetivo investir nos desdobramentos performativos das questões caras ao projeto. Nessa sábado, apresente na Monstra hífen de pesquisa-cena a performance: Trans*corrimento Xoxotaço, as 18:00 no Teatro Dulcina.

Trans*corrimento Xoxotaço é uma ação que consiste em um striptease de uma única peça em multiplicidade. (re)combinando próteses de gênero socialmente atribuídas ao masculino (barba, bigode...) e ao feminino (batom, peruca...) busco criar nesse trabalho uma espécie de corpo que não está aprisionado aos padrões binários de gênero. Um corpo híbrido, um corpo em arte, monstruoso por sua natureza inorgânica, ciborgue por opção, debochado por vocação. Além da imagem-corpo em movimento, pesquiso a expressão de uma corporeidade adolescente, reforçando a ideia de um corpo em constante fluxo de mudança, atravessado pela velocidade, instabilidade e oscilação da máquina desejante. 

O programa da performance é simples e consiste, como já mencionado, em um striptease de uma única peça em quantidade e variedade. Me programo para tirar e recolocar as 50 calcinhas que visto em sobreposição, numa ação continuada. Um dado valioso do programa é que as calcinhas não foram compradas, mas sim doadas por mulheres amigas a partir da construção de uma rede pautada na colaboração afetiva para com o trabalho. Todas as calcinhas utilizadas são usadas, manchadas, rasgadas e velhas. As calcinhas, enquanto objetos performativos, carregam consigo uma história e são, também por isso, documentos cênicos que (re)visitam as noções de memória e esquecimento na medida em que atualizam, no decorrer da ação, as ideias de passado e futuro, friccionando o presente. Uma a uma as calcinhas são tiradas e reposicionadas ao longo das pernas, que estão tensionadas e abertas, fazendo com que as mesmas fiquem esticadas, uma acima da outra, formando a imagem de uma perna-calcinha, um edifício de feminilidade, repleto de gozo, (re)gozo, saliva, sangramento, desejo, paixão mas também violência, repulsa, dor e não-vontade. Ao fim da retirada de todas as peças, uma a uma, as calcinhas são recolocadas e assim a ação prossegue em duração pré-estabelecida anteriormente pelo performer. A duração da ação pode variar de acordo com o espaço, o tipo de evento e a vontade do performer.

Trans*corrimento Xoxotaço é um trabalho voltado para a valorização do sangue que não é orgânico, do corpo alterado, modificado e transtornado. Mais do que aquilo que nos é inerente, a circulação do sangue, pretendo com a ação expor outros tipos de corrimento, aqueles que ainda não são classificados e enjaulados pelas ciências psis e médicas. O corpo trans* também sangra e o nosso sangue está voluntariamente misturado e transado com purpurina, maquiagem, pelos, pentelhos, suor, carne, silicone, interferências de todos os tipos nos mais variados espaços - dos imagináveis aos impensáveis. O xoxotaço guerrilha pela autodeterminação de gênero, denunciando zonas de estagnação e gueto, afirmando sua diferença, instaurando um brinde a singularidade do corpo.

A performance surgiu nas discussões facilitadas pela professora, performer e teórica da performance Eleonora Fabião durante as aulas do curso: Performances: teoria, historiografia e criação - ministrado em 2014/2, no Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena da UFRJ. 







fotos de: Susana Amaral.

domingo, 28 de setembro de 2014

Entrevista.

Programa:

O performer será entrevistado pelos membros da equipe. Cada membro elaborará as suas perguntas a partir dos motes temáticos sugeridos pelos performer. O performer responderá uma pergunta de cada vez, podemos usar o corpo e o espaço como parte de suas respostas. O performer não poderá usar objetos. Perguntas parecidas ou até mesmo iguais, elaboradas pelos membros da equipe, não poderão ser eliminadas. Para cada pergunta parecida, o performer deve se esforçar para dar uma resposta diferente.

motes

- infância/homossexualidade
- infância/brinquedo/brincadeira/rosa/azul/bárbie
- infância/sonho/disney/
- escola/amigas/meninas/grupo
- escola/grêmio
- escola/preconceito
- faculdade/pessoas/gênero/
- faculdade/liberdade/questionamentos
- corpo/barba/pelos/pele
- corpo/gesto/gestualidade
- corpo/cidade/medo/insegurança/sofrimento
- cidade/medo/violência/preconceito
- cidade/pessoas/trajetórias/olhar
- corpo/cena/corpo como espaço/espaços do corpo
- cena/sonho/desejo/troca

perguntas que devem ser feitas pelos membros da equipe para o performer

- para você, o que significa o projeto Sonho Alterosa?
- quais são os seus desejos em relação ao projeto?

toda a entrevista deve ser filmada.