Sonho Alterosa é uma investigação cênico-científica-performa tiva-transviada-bizarra borrada pelo tensionamento que emerge do encontro de dois universos: a ambiência dos contos de fada e a resistência da bicha efeminada. O projeto teve início em junho de 2013 como parte integrante da pesquisa de doutorado do artista pesquisador Caio Riscado.
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terça-feira, 11 de agosto de 2015
Primeiro encontro com equipe.
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segunda-feira, 22 de junho de 2015
Xoxotaço Copi
caminho
(des)caminho
rastro
mancho o chão
com o sangue
ausente
crio trajetória
traço
desenho
rabisco
você
quer papá?
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quarta-feira, 12 de novembro de 2014
Trans*corrimento Xoxotaço
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domingo, 9 de novembro de 2014
Esconjuramento
O dramaturgo Gustavo Colombini cria o texto ESCONJURAMENTO a partir do seu contato com a performance Trans*corrimento Xoxotaço na mostra hífen de pesquisa-cena. Esconjuramento é lindo e corajoso. Me senti presenteado. Obrigado, Gustavo.
esconjuramento
Desaforado,
respirando muito,
um tropeço,
muita calma.
respirando muito,
um tropeço,
muita calma.
E a luz.
Pontilhada na vista, alaranjado-amarela.
De clarão.
E os sussurros.
De um canto gemido, em multivoz.
No chão.
De clarão.
E os sussurros.
De um canto gemido, em multivoz.
No chão.
Meu corpo explodido em vida,
Meu corpo vivendo de tanto ser visto,
Meu corpo morrendo.
Meu corpo vivendo de tanto ser visto,
Meu corpo morrendo.
Me esbarraram no corpo,
dolorido,
rolado abaixo,
no canto.
dolorido,
rolado abaixo,
no canto.
Caído no meio da gente toda em fila, caminhando lenta, de pouco em pouco.
Respirando melodia hipnótica.
Vendo céu, virando giro.
Atordoado.
Respirando melodia hipnótica.
Vendo céu, virando giro.
Atordoado.
O assombro daquela multidão trotando de pé no chão, desviando da barreira.
Não via rosto. Via só a cor do mundo numa só, arco-íris, preto-cinza, escuridão.
Quentura de vela, visão de fogo, aquele avermelhado dos olhos.
E o corpo moído, ralado de terra, querendo resposta, motivo e porquê.
Não via rosto. Via só a cor do mundo numa só, arco-íris, preto-cinza, escuridão.
Quentura de vela, visão de fogo, aquele avermelhado dos olhos.
E o corpo moído, ralado de terra, querendo resposta, motivo e porquê.
Outro eu.
Tinha energia virando. Pra querer pedaço de volta.
Repedaço.
Pra evocar.
O teu tratado.
E seguindo a procissão, essa distante.
De onde você vê e larga um sorriso divinado, ressentido.
Teu presente. O bater desses pés no chão pedindo resposta.
Repedaço.
Pra evocar.
O teu tratado.
E seguindo a procissão, essa distante.
De onde você vê e larga um sorriso divinado, ressentido.
Teu presente. O bater desses pés no chão pedindo resposta.
Aparição.
Que o canto chegue cantado, como deve ser.
Vontade-carinho. Essa distância. E alcançar essa lonjura.
As bocas que andam resmungandozunindo, transfigurando.
Pros olhos que você já virou. Toma essa luz, solta em clarão.
Diz que vive ao som de reza.
Mandingaria.
Essa viadagem.
É teu povo guiando essa tristeza-carnaval.
Que não para.
Vontade-carinho. Essa distância. E alcançar essa lonjura.
As bocas que andam resmungandozunindo, transfigurando.
Pros olhos que você já virou. Toma essa luz, solta em clarão.
Diz que vive ao som de reza.
Mandingaria.
Essa viadagem.
É teu povo guiando essa tristeza-carnaval.
Que não para.
Gente que entra gente e sai deus.
Gente que entra mancando e sai em revoada.
Gente que entra raposa e sai passarinho.
O canto pras mães que já morreram.
Que perderam os filhos por beleza demais.
Gente que entra mancando e sai em revoada.
Gente que entra raposa e sai passarinho.
O canto pras mães que já morreram.
Que perderam os filhos por beleza demais.
Sublimação.
Pra cuidar dos filhos que ficaram.
Que só não levaram por amor.
O eco desse colo vazio.
Aquele adeus e cada um.
Essa procissão de gemido. Iluminando o caminho que leva, a passagem.
O canto que te evoca, bem pesado. Vem responder com chuva, com trovoada. Requiando um canto.
Fantasmagorizando essa saudade.
Uma energia tua entrando na pele.
Como abraço. Nesse círculo.
Que só não levaram por amor.
O eco desse colo vazio.
Aquele adeus e cada um.
Essa procissão de gemido. Iluminando o caminho que leva, a passagem.
O canto que te evoca, bem pesado. Vem responder com chuva, com trovoada. Requiando um canto.
Fantasmagorizando essa saudade.
Uma energia tua entrando na pele.
Como abraço. Nesse círculo.
Eu cubro o sexo com as minhas dores.
E também com as dores de quem não podem mostrar que sentem dor.
Eu gozo em respeito ao meu corpo.
Eu gozo pelo seu direito de gozar.
E também com as dores de quem não podem mostrar que sentem dor.
Eu gozo em respeito ao meu corpo.
Eu gozo pelo seu direito de gozar.
Concentrando o olhovento.
Que te observo na nuvem. Trancada numa caixa.
A maquiagem sujando teu rosto
Teu lindo rosto sujo.
Nesse canto, recanto.
Pra evocar nessa nudez: o teu regresso. Em forma dágua. De dança. De silêncio.
Às mortes dos que só morrem de verdade.
Às mortes dos que morrem por amarem quem não podem.
Que te observo na nuvem. Trancada numa caixa.
A maquiagem sujando teu rosto
Teu lindo rosto sujo.
Nesse canto, recanto.
Pra evocar nessa nudez: o teu regresso. Em forma dágua. De dança. De silêncio.
Às mortes dos que só morrem de verdade.
Às mortes dos que morrem por amarem quem não podem.
Pois se chover, eu bebo cada gota. Com a esperança.
Pra chover pedaço de carne. E doer.
Como dói em mim.
Pra chover pedaço de carne. E doer.
Como dói em mim.
Foi o corpo que levantou sozinho e respirou de novo.
E se despiu trinta e cinco vezes.
E se despiu por quem não pode se despir sem medo.
E se despiu trinta e cinco vezes.
E se despiu por quem não pode se despir sem medo.
Eu não tenho mais medo de mim.
Vem de cura, nossa mãe.
Avisa a minha que sinto muito. Avisa a minha que ela é só minha.
Pra minha reza de deformação.
A caber de novo no seu útero.
Seu sexo.
Deduzo. A sua vera forma.
Eu que levantei e vi o visto, um vulto, passando através de mim.
Vem de cura, nossa mãe.
Avisa a minha que sinto muito. Avisa a minha que ela é só minha.
Pra minha reza de deformação.
A caber de novo no seu útero.
Seu sexo.
Deduzo. A sua vera forma.
Eu que levantei e vi o visto, um vulto, passando através de mim.
Outro eu.
O teu pai que virou mãe.
O meu irmão que agora é tia.
A tua irmã que já é padrinho.
O teu pai que virou mãe.
O meu irmão que agora é tia.
A tua irmã que já é padrinho.
O corpo que era meu despertenceu.
A boca que era minha falou em outra voz.
Pra vir falar esse idioma de gozo.
Pra desfigurar meu corpo nessa transubstância.
Pra triturar meu rosto nessa terra uma vez mais.
E o ombro que não se mexia.
E o braço que não se mexia.
E a mão que não se mexia.
Sem dedo.
E um fogo passando no umbigo.
E o punho fincado lá dentro, revirando, remexendo.
Apertidão.
A boca que era minha falou em outra voz.
Pra vir falar esse idioma de gozo.
Pra desfigurar meu corpo nessa transubstância.
Pra triturar meu rosto nessa terra uma vez mais.
E o ombro que não se mexia.
E o braço que não se mexia.
E a mão que não se mexia.
Sem dedo.
E um fogo passando no umbigo.
E o punho fincado lá dentro, revirando, remexendo.
Apertidão.
Um coração de mãe alargado. Elástico, pálido, plástico, seu nome em vermelho.
A devoção dessa mostra oca de gente-dor.
Vem pedindo seu colo vazio, seu murmuro desautorizado.
O carimbo da sua testa, repetido. A nuvem-sexo. Bloqueada no dente. A mordida.
Pra te cantar como hino.
E me respirar.
Essa mão fechada em soco. Rebolada.
Reticente.
Retirante.
A devoção dessa mostra oca de gente-dor.
Vem pedindo seu colo vazio, seu murmuro desautorizado.
O carimbo da sua testa, repetido. A nuvem-sexo. Bloqueada no dente. A mordida.
Pra te cantar como hino.
E me respirar.
Essa mão fechada em soco. Rebolada.
Reticente.
Retirante.
terça-feira, 4 de novembro de 2014
Comentário_Xoxotaço
caio bemzinho, também adorei estar presente hahaha! Vou me autoparafrasear e transmitir minhas impressões sobre o xoxotaço rs: "sangue menstrual, símbolo de fertilidade ou de vida pulsante feminina, se faz ausente no corpo pálido dos indivíduos andróginos. E desprovidos de organicidade ou de naturalidade, a figura do híbrido, do travesti, do transex, do desviante, traça uma linha um percurso de chegada até a sua natureza, por meio da auto-mutilação. Ele se perfura, na esperança de pelo menos escorrer." Enfim, fiquei pensando bastante nesse limiar entre o prazer do gozo, e essa apaticidade! Hahaha essas foram as minhas piras, talvez elas não tenham nada a ver com nada, mas eu curti bastante mesmo. Confesso que fiquei angustiadíssimo com os olhares das pessoas que passavam na rua, até me preocupei com você hahaha
- comentário de Matheus Macena.
terça-feira, 28 de outubro de 2014
Trans*corrimento Xoxotaço.
Ao longo do processo de criação e pesquisa de Sonho Alterosa me comprometi a fazer uma série de performances variadas que tem por objetivo investir nos desdobramentos performativos das questões caras ao projeto. Nessa sábado, apresente na Monstra hífen de pesquisa-cena a performance: Trans*corrimento Xoxotaço, as 18:00 no Teatro Dulcina.
Trans*corrimento Xoxotaço é uma ação que consiste em um striptease de uma única peça em multiplicidade. (re)combinando próteses de gênero socialmente atribuídas ao masculino (barba, bigode...) e ao feminino (batom, peruca...) busco criar nesse trabalho uma espécie de corpo que não está aprisionado aos padrões binários de gênero. Um corpo híbrido, um corpo em arte, monstruoso por sua natureza inorgânica, ciborgue por opção, debochado por vocação. Além da imagem-corpo em movimento, pesquiso a expressão de uma corporeidade adolescente, reforçando a ideia de um corpo em constante fluxo de mudança, atravessado pela velocidade, instabilidade e oscilação da máquina desejante.
O programa da performance é simples e consiste, como já mencionado, em um striptease de uma única peça em quantidade e variedade. Me programo para tirar e recolocar as 50 calcinhas que visto em sobreposição, numa ação continuada. Um dado valioso do programa é que as calcinhas não foram compradas, mas sim doadas por mulheres amigas a partir da construção de uma rede pautada na colaboração afetiva para com o trabalho. Todas as calcinhas utilizadas são usadas, manchadas, rasgadas e velhas. As calcinhas, enquanto objetos performativos, carregam consigo uma história e são, também por isso, documentos cênicos que (re)visitam as noções de memória e esquecimento na medida em que atualizam, no decorrer da ação, as ideias de passado e futuro, friccionando o presente. Uma a uma as calcinhas são tiradas e reposicionadas ao longo das pernas, que estão tensionadas e abertas, fazendo com que as mesmas fiquem esticadas, uma acima da outra, formando a imagem de uma perna-calcinha, um edifício de feminilidade, repleto de gozo, (re)gozo, saliva, sangramento, desejo, paixão mas também violência, repulsa, dor e não-vontade. Ao fim da retirada de todas as peças, uma a uma, as calcinhas são recolocadas e assim a ação prossegue em duração pré-estabelecida anteriormente pelo performer. A duração da ação pode variar de acordo com o espaço, o tipo de evento e a vontade do performer.
Trans*corrimento Xoxotaço é um trabalho voltado para a valorização do sangue que não é orgânico, do corpo alterado, modificado e transtornado. Mais do que aquilo que nos é inerente, a circulação do sangue, pretendo com a ação expor outros tipos de corrimento, aqueles que ainda não são classificados e enjaulados pelas ciências psis e médicas. O corpo trans* também sangra e o nosso sangue está voluntariamente misturado e transado com purpurina, maquiagem, pelos, pentelhos, suor, carne, silicone, interferências de todos os tipos nos mais variados espaços - dos imagináveis aos impensáveis. O xoxotaço guerrilha pela autodeterminação de gênero, denunciando zonas de estagnação e gueto, afirmando sua diferença, instaurando um brinde a singularidade do corpo.
A performance surgiu nas discussões facilitadas pela professora, performer e teórica da performance Eleonora Fabião durante as aulas do curso: Performances: teoria, historiografia e criação - ministrado em 2014/2, no Programa de Pós-Graduação em Artes da Cena da UFRJ.
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