Sonho Alterosa é uma investigação cênico-científica-performativa-transviada-bizarra borrada pelo tensionamento que emerge do encontro de dois universos: a ambiência dos contos de fada e a resistência da bicha efeminada. O projeto teve início em junho de 2013 como parte integrante da pesquisa de doutorado do artista pesquisador Caio Riscado.
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segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

MANIFESTO (Falo pela minha diferença) de Pedro Lemebel. Tradução de Alejandra Rojas C.

Não sou Pasolini pedindo explicações
Não sou Ginsberg expulso de Cuba
Não sou uma bicha fantasiada de poeta
Não preciso de fantasia
Aqui está a minha cara
Falo pela minha diferença
Defendo o que sou
E não sou tão estranho
Me aborrece a injustiça
E suspeito desta lenga-lenga democrática
Mas não me fale do proletariado
Porque ser bicha e pobre é pior
É preciso ser ácido para suportá-lo
É dar a volta nos machões da esquina
É um pai que te odeia
Porque o filho requebra o pezinho
É ter uma mãe com as mãos rachadas pela água sanitária
Envelhecidas de limpeza
Embalando-me no colo quando doente
Por maus costumes
Pela má sorte
Como a ditadura
Pior que a ditadura
Porque a ditadura passa
E vem a democracia
E logo atrás vem o socialismo
E então?
O que farão conosco companheiro?
Nos amarrarão pelas tranças em fardos
Com destino a um sanatório de aidéticos em Cuba?
Nos enfiarão em algum trem a lugar nenhum
Como no navio do General Ibañez*
Onde aprendemos a nadar
Mas ninguém chegou à praia
Por isso Valparaíso apagou suas luzes vermelhas
Por isso as casas de tolerância
brindaram uma lágrima negra
Às bichas devoradas pelos caranguejos
Esse ano que Comissão dos Direitos Humanos não quer lembrar
Por isso, companheiro, lhe pergunto
Existe ainda o trem siberiano da propaganda reacionária?
Esse trem que passa por suas pupilas
Quando a minha voz fica doce demais
E você?
O que fará com a lembrança dessas crianças
Batendo punheta e mais outras coisas nas férias em Cartagena?
O futuro será preto e branco?
O tempo em noite e o dia de trabalho sem ambiguidades?
Não haverá uma bicha em alguma esquina
Desequilibrando o futuro do seu homem?
Nos deixarão bordar de pássaros as bandeiras da pátria livre?
O fuzil fica com você
Que tem sangue frio
E não é medo não
O medo foi passando
De tanto esquivar facas
Nos porões sexuais por onde andei
E não se sinta agredido
Se lhe falo dessas coisas
E olho para seu volume dentro da calça
Não sou hipócrita
Acaso as tetas de uma mulher não desviam seu olhar?
Você não acha que sozinhos na serra alguma coisa haveria de nos ocorrer?
Mesmo que depois sinta ódio de mim
Por corromper sua moral revolucionária
Você tem medo de que se homossexualize a vida?
E não falo apenas de enfiar e tirar
Tirar e enfiar
Falo de ternura, companheiro
Você não sabe
O quanto custa encontrar o amor
Nestas condições
Você não sabe
O que é carregar esta lepra
As pessoas guardam distância
As pessoas compreendem e dizem:
É bicha, mas escreve bem
É bicha, mas é um bom amigo
É um cara legal
Eu não sou um cara legal
Eu aceito o mundo
Sem pedir que seja legal
Mesmo assim eles riem
Tenho cicatrizes de risos nas costas
Você acha que penso com a bunda
E que no primeiro ‘pau de arara’ da CNI
Entregaria os meus amigos
Você sabe que a hombridade
Não a aprendi nos quartéis
Foi a noite quem me ensinou a hombridade
Atrás de um poste
Essa hombridade da qual você se gaba
Você a aprendeu no quartel
De um ‘milico’ assassino
Desses que ainda estão no poder
A minha hombridade não a recebi do partido
Porque fui rejeitado com risadinhas
Muitas vezes
Aprendi a minha hombridade participando
Na dureza desses anos
E riram da minha voz de bichinha que gritava: já vai cair, já vai cair
E mesmo que você grite como homem
Ainda não conseguiu mandá-lo embora
Minha hombridade foi a mordaça
Não foi ir ao estádio
E brigar a socos por causa do Colo-Colo
O futebol é outra homossexualidade velada
Assim como o boxe, a política e o vinho
A minha hombridade foi morder as zombarias
Comer raiva para não matar todo mundo
Minha hombridade é me aceitar diferente
Ser covarde é muito mais duro
Não ofereço a outra face
Ofereço a bunda, companheiro
E essa é a minha vingança
Minha hombridade espera paciente
Que os machos fiquem velhos
Porque a essa altura do partido
A esquerda negocia sua bunda murcha
No parlamento
Minha hombridade foi difícil
Por isso nesse trem não embarco
Sem saber para onde vai
Não vou mudar pelo marxismo
Que tantas vezes me rejeitou
Não preciso mudar
Sou mais subversivo que você
Se dá conta?
Não vou mudar apenas
Porque os pobres e os ricos…
Não me venha com essa
Nem porque o capitalismo é injusto
Em Nova Iorque as bichas se beijam nas ruas
Mas essa parte fica para você
Que tanto lhe interessa
Que a revolução não apodreça totalmente
Para você vai esta mensagem
E não é por mim
Eu estou velho
E sua utopia é para as futuras gerações
Há tantas crianças que nascerão
com uma asinha quebrada
E eu quero que elas voem, companheiro
Que sua revolução
Lhes dê um pedaço de céu vermelho
Para que possam voar.
NOTA: Este texto foi lido como intervenção em um ato político da esquerda chilena, em setembro de 1986, ao cumprirem-se 13 anos do golpe militar, em Santiago do Chile.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Piazzoleando

Perdi-me muitas vezes pelo mar
Com o ouvido cheio de flores recém-cortadas
Com a língua, cheia de amor e de agonia
Muitas vezes me perdi pelo mar
Como me perco no coração de alguns meninos
Porque as rosas buscam em frente
Uma dura paisagem de osso
E as mão do homem não tem mais sentido
Que imitar as raízes sobre a terra
Como me perco no coração de alguns meninos
Perdi-me muitas vezes pelo mar
Ignorante da água
Vou buscando uma morte de luz que me consuma



Federico García Lorca

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Berenice, senta aqui.

Essa história não é sobre paixão, amor, prazer ou literatura. Quando olho para trás só vejo futuro, tal qual o via nos olhos do menino. E também não é sobre refazer, reviver ou trazer a tona. Tem coisas que a gente faz porque faz. Ou melhor, porque é preciso fazer. Então também é sobre todas as coisas que eu disse que não era. Isso porque eu queria dizer umas coisas cruéis, fazer doer com as palavras, machucar o corpo. Eu queria gritar, dizer poucas e boas, chacoalhar a moral e gozar na cara da cidade. Me lambuzar todinha, cortar os pulsos, sangrar a pele e arranhar as costas.

Eu pensei em usar velas, chicote, amarras, cinto, cinta, fivela e gente gemendo. Babar umas coisas, sujar o chão, abusar de frutos estranhos e cheiros ruins. Pensei um montão de coisas desse tipo, mas isso não se parece comigo. Essas coisas não me emocionam, elas não me excitam. Acho que eu sou uma pessoa romântica, um pouco antiquada, cafona e ridícula. Um pouco bocó, do tipo que chora à toa e detesta confusão. Sabe?

Então eu decidi que vou usar flores, vou dizer umas poesias, por uma música e chorar baixinho bem ali: no canto da sala. Eu vou me deitar no chão, deixar o meu corpo pesado e, em seguida, mover os braços lentamente. Eu vou abraçar o espaço como quem abraça uma pessoa querida e esse gesto vai durar um tempo. Indeterminado. Aí eu vou descansar os braços e ficar ali quietinho, pensando, só pensando na falta que você me faz. Algumas coisas vão passar pela minha cabeça, eu sei que vou projetar imagens e tudo o que eu vou ver é concreto. Eu vou sentir o calor do seu corpo, o compasso desorientado da sua respiração e o cheiro da sua pele. Eu vou tentar te acompanhar, colar o meu corpo no seu, eu vou pensar que você é meu - só por esse instante, provisoriamente. Eu vou envolver o seu rosto com as minhas mãos, olhar nos seus olhos, tocar nos seus lábios e sorrir de levinho. Se você sorrir de volta, eu vou lhe acariciar a face, passar os meus dedos por suas sobrancelhas e na maçã do rosto. Aí eu vou beijar a sua boca, lamber a sua língua e beber da sua saliva. Você... Você vai sentir o gosto amargo do cigarro que eu acabei de fumar misturado com o doce do céu da minha boca. Eu vou apertar os seus braços e, enquanto te beijo, pressionar o seu corpo contra o meu. Eu vou calar a tua pressa com o meu suor e lhe dizer jujuba como quem diz eu te amo: e-u-t-e-o-d-e-i-o.

Depois eu vou estar no mar e de dentro d'água vou ver você na pedra enrodilhado como um fauno menino, admirando o horizonte. Você vai me dizer para olhar a lua e eu que não sei dar valor a natureza vou ficar sem graça. Nessa hora, talvez, você desista de ter filhos comigo. Mas uma sereia vai passar e o mar vai ficar agitado fazendo com que as ondas batam mais forte na pedra. A espuma da água vai respingar em você e você vai esquecer... 

Aí eu vou sair do mar: nu e ereto. Vou balançar os cabelos que não tenho e me sacudir feito um cachorro hidrófobo. Eu vou latir pra você, meu bem, e vou caminhar na sua direção. Eu vou me sentar ao seu lado e nós vamos deitar na pedra juntos. E esse gesto vai durar um tempo. Indeterminado. Quando você pensar em ir embora eu vou te segurar pelos cabelos e nós vamos fazer sexo, bêbados.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Virando mochila - pré Berenice

- ãhn?

- aham

- ah, tá

- tá, eu sei

- não

- quê?

- hum

- uhum

- nunca

- 3 vezes

- mais ou menos

- um pouco

- sim

- ãnnnnnnn. sei lá

- foi

- tá.

Conversando com Berenice #3

As coisas, as coisas, as coisas nunca foram simples, Berenice. Por detrás de toda coisa há sempre uma coisa maior, um emaranhado de coisas embaralhadas que fazem com que a gente veja as coisas como as coisas são. Ou melhor, como parecem ser as coisas. Mas as coisas não são nada além do que foi projetado pra elas. O que eu quero dizer com isso, Berenice, é que nem tudo parece ser o que é; e tudo o que é, não é só o que parece. Compreende? Nada, coisa alguma, nada é sozinho. Tudo só é, só o pode ser porque está em relação. E é impossível definir a coisa, falar da coisa sem relacionå-la a outra coisa e assim por diante. Se cada coisa tem seu lugar, como dizem alguns, no lugar de cada coisa se alojam ainda milhares de outras coisinhas. É como se as coisas se desdobrassem para dentro delas mesmas: uma coisa carrega outra coisa, que é fruto de outra coisa que, por sua vez, só existe em razão de coisas outras. As coisas, em si, não podem ser examinadas se fora do seu contexto. Mas isso não quer dizer que precisemos buscar a origem das coisas. Assim como as coisas, suas origens também são ficções. E como toda ficção, as coisas não escapam de correntes de pensamento e/ou movimentos de construção e naturalização da história. O presente das coisas, Berenice, está para o futuro assim como continua estando para o passado. Uma coisinha de nada hoje, por exemplo, pode ser uma bomba de ontem e, na semana que vem, até deixar de ser coisa com a qual se preocupar. A verdade das coisas já é, por si só, uma falsa questão - universalizar as coisas é um projeto cruel que, para além de banalizar tudo o que é coisa, visa homogeneizar as coisas todas - coisificå-las em categorias, guetos, grupos, identidades e práticas. Ou seja, um sistema de dominação e higienização de todas as coisas. Mas nem tudo está perdido, pois as coisas resistem, Berenice, elas afirmam sua diferença, reivindicam o seu lugar, sua condição de coisa singular. Então as coisas se movimentam nessa direção. E, sabendo ser impossivel ser alguma coisa fora do sistema das coisas, as coisolas extrapolam os limites da oposição e pasam a resistir de dentro das próprias coisas. Coisas engajadas sabem que o ser coisa é sempre um estado de passagem, uma modificação, um acidente na paisagem e também no tempo. A relação espaço-temporal da coisa com as suas coisas é, então, operada como um projeto de vida, um fluxo coisa atravessado, poroso, mas consciente - a resistência como um extenso plano de negociação; onde o devir implica em prudência. Por fim, Berenice, vale ressaltar que apesar de todas as coisas, e assim como as coisas, você não está sozinha. Nós, Berenice, nós não somos minoria. Somos uma coisa inclassificável. Nós somos a multidão.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Conversando com Berenice

“Esse termo, abjeção, se refere ao espaço a que a coletividade costuma relegar aqueles e aquelas que considera uma ameaça ao seu bom funcionamento, à ordem social e política” (MISKOLCI, 2012, p. 24). A vivência da abjeção está inscrita nos corpos de todos aqueles e aquelas que não correspondem às expectativas do padrão dominante. São sujeitos que rompem com as normas de gênero, com o sistema binário generalizante, e por essa razão são cotidianamente atingidos pela violência física e simbólica gerada pela ordem sexual do presente: a heteronormatividade. Vale ressaltar que neste trabalho consideramos o termo abjeto como sinônimo da experiência que é tida como repulsiva, horrível, incompreensível, mas ainda assim catalogável. O sujeito abjeto não está além ou fora das categorias (re)conhecidas pela inteligibilidade social (JUNIOR, 2012). Explico: apesar de se desviar dos ditos “gêneros inteligíveis”, do masculino e do feminino, e ser tratado de forma inferiorizada, o sujeito abjeto não escapa de ser enquadrado pelo dominante em uma outra cela específica: a categoria de monstro.  Nos limites deste trabalho, a categoria monstro, de existência rotulada como bizarra, pode ser também compreendida como um reflexo da retórica da diversidade que quer manter “cada um no seu quadrado”. A retórica da diversidade está atrelada à noção de tolerância e convívio, mantendo cada sujeito em um determinado grupo (ou gueto) criado a partir da catalogação de uma identidade ou prática sexual. Tolerar é diferente de reconhecer o outro, de valorizá-lo em sua especificidade, em sua diferença. Nesse mesmo sentido, a ideia de conviver com a diversidade também não significa reconhecê-la, pois a noção de diversidade fortalece a ideia de que uma parcela de pessoas se desvia da norma e, por isso, deve ser tolerada. Ou seja, o rótulo da diversidade só localiza o desviante porque antes considera um padrão, uma norma. E é a partir desse padrão que as outras identidades são classificadas e transformadas em monstruosas. A guetização dos corpos articula silenciosamente o plano de homogeneizar práticas e identidades, mantendo as relações de poder intocadas. Assim sendo, restam para a categoria dos monstros todos aqueles e aquelas que não se sentem representados pela política identitária universalista, que transgridem as homossexualidades já padronizadas e a ordem heteronormativa vigente. Por conta desse processo de desidentificação, esses sujeitos são desumanizados pelo dominante, relegados da sociedade e enclausurados no gueto do horror.

sábado, 3 de outubro de 2015

Muitas.

Era fácil criar um mundo, despertencer ao já sabido para habitar o estranho, o imaginário. Esse movimento sempre me pareceu natural. Produzia rotas de fuga diárias, como quem vai ao supermercado ou escova os dentes toda manhã. Difícil mesmo era permanecer aqui, aceitar o tempo e sua complexa relação com o corpo da gente, com nossos desejos. Estar presente sem se anular, criar estratégias de sobrevivência, não ceder. Logo aprendi que seria preciso negociar, pois habitar a trama não significa dominá-la, mas justamente o oposto. É preciso saber tanto para gerar desconhecimento, acompanhar a paisagem e seus acidentes, modificar o interno por ação do externo e vice e versa. 

Dançar também nunca foi fácil. Ainda mais quando se dança assim tão de lado e todo rebolado. Em um segundo sou capaz de criar um mundo pelo simples movimento das mãos. Se coloco aqui sou Frida Kahlo, um pouco pro lado princesa Léia. Posso ser um gatinho, um pato de estimação ou um tigre. Segurando um cigarro, com o rosto de lado e um breve sorriso, sou Hannah Arendt e também a enigmática Clarice Lispector - essa, sem sorrir, é claro. Com um arco feito dos próprios cabelos, sou Beauvoir. De espada na mão, Joana D`arc. Sem espada, mas não sem armas, Josephine Baker, Carmem Miranda e Chica da Silva. Sou Anita Garibaldi em cima do cavalo, Ana Cristina César em cima da janela e Rita Lee em cima do palco. Se choro, sofro como Calcanhoto, festejo como Elba e com Valesca Popozuda vou dez vezes até o chão. Passeio pelas letras, sou Breatriz Bracher, fui separada na maternidade de Verônica Stigger pois não compreendo como não somos irmãs. Sou a faca afiada do poema encardido de Angélica Freitas que deita consigo mesma para amar o outro. Sou Jacira Caio Fernando Abreu, uma saudade enorme de Marcia X que não tive a oportunidade de conhecer, mas com quem ainda travo longas conversas. 

Com as mãos na cintura sou Madame Satã, balançando os braços Elis e, quando indignada, sou Vanessão. Não era só pelos vintes centavos e nem só pelos vintchy reias, quirida. Jogada no mar, camuflada entre as flores e o fogo vermelho, sou Ana Mendieta, Julia Roberts tomando banho de banheira e na garupa de João Miguel, sou Hermila virando céu. Quando gargalho ou grito alto, sou a fúria da Cássia Eller mãe, grisalha como Tempestade e boa de fogão como Dona Benta. Invento moda, sou Coco Channel, Mary Poppins de guarda-chuva, vou me embora de mala e cuia, viro memória como as Spice Girls. Sou Sandy toda cagada na festa do tatu e dentro da cabaninha sou também Punk, a levada da breca. Tarsila do Amaral, o bigode de Carlota Joaquina e as cem mil perucas e saias e bordados e sapatos de Maria Antonieta. Não te mete comigo que eu fecho com Oxum, vou turbinada em meu carro, Penélope Charmosa; eu sou a Pantera Cor de Rosa. 

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Previsão do Tempo

Ser bicha é ser enquadrado, no inciso C, do parágrafo terceiro, do artigo 24, da lei de segurança internacional, seco e de muito calor. É ter medo à flor da pele, é ter a língua ferida, a boca rubra, o beijo fácil, mas vamos ver se o tempo continua assim o amor saindo pelos poros. Ser bicha é um estado de espírito, a expectativa é de mais um dia muito quente e bastante seco em boa parte do Brasil de choque, de sítio, de graça. Como o artista pinta seu quadro, já que não temos previsão de chuva pois a massa de ar seco continua estagnada no país como a luz que filtra a janela do quarto, a lua bojuda no céu. Ser bicha: ser inspecionado, é ter revirado o passado e investigado o medo – subindo os termômetros devem chegar a marcar o cheiro saudoso dos primeiros tempos no extremo norte do país. É a polícia, acesa e trêmula no encalço do baitola amedrontado, claro índice de pouca humidade/humanidade no ar. Ser bicha é ser metade gente, a outra metade - o povo, gargalha garganta a dentro no litoral nordestino, ri e galhofeiro. A boa notícia pro no final de semana É Ter parte com o demônio, aprendiz de feiticeiro. É estar entre, no meio, ser meta-de Outros homens quando o calor dá uma amenizada e poderemos ter algumas pancadas de chuva aqui no Rio de Janeiro.

Paulo Augusto + interferências.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Conta a lenda que dormia
uma Princesa encantada
a quem só despertaria
um Infante, que viria
de além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
vencer o mal e o bem,
antes que, já libertado,
deixasse o caminho errado
por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
e orna-lhe a fronte esquecida,
verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
sem saber que intuito tem,
rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino –
ela dormindo encantada,
ele buscando-a sem tino
pelo processo divino
que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
tudo pela estrada fora,
e falso, ele vem seguro,
e, vencendo estrada e muro,
chega onde em sono ela mora.
E, inda tonto do que houvera,
à cabeça, em maresia,
ergue a mão, e encontra hera,
e vê que ele mesmo era
a Princesa que dormia.
Fernando Pessoa

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

22 de agosto de 2015

18:14

Dá um nó no tempo. O corpo confundi e a cabeça inventa. Acordei fazendo planos tão bestas quanto a minha cara lhe pedindo um beijo. O álcool intensifica o processo e as questões não amadurecem. Acordei querendo gritar umas coisas, chorar uns livros. Tudo sujeira. Tudo deserto. Tudo certo. Sou pedra pouco lapidada, acordei sentindo sua falta. Uma falta criada, um vazio ficcional.

18:38

E podia ter mais. Mas eu não sei fazer poesia com vento forte. Bom sábado.

A BALADA DOS AFEMINADOS - CHARLES BERNSTEIN / TRAD. SANDRO ORNELLAS

A verdade jaz debaixo do choro
Com o medo, a casca do luto vira couro

Uma democracia adulta
Definha e se torna suja
Por brutamontes que odiar
Preferem em lugar de rimar

As quatro letras da complexidade
Para os que têm e não têm
Mentir dados de Darwin
E endeusar o que Halliburton diz

A verdade jaz debaixo do choro
Com o medo, a casca do luto vira couro

Bandidos roubam o estoque de liberdade
O rico ganha palmas, o pobre, sete palmos
E o deus que abençoa isso
Não é deus, é discurso vazio

Então seja afeminado
Assuma um jeito viado
Cante uma canção libertina
E dance com saia de menina

Poesia não vence a guerra contra o terror
Mas também não repete o erro do horror

Nós afeminados não tememos
Razão, interdependência ou incerteza
Usamos antes e depois da luta a cabeça
Rezamos por bom senso, arte e compromisso

Então seja um afeminado
Cante essa canção libertina
Maricas e altivos
Nunca fugiríamos da guerra

Afeminados mataram cristo
Diz o DVD Platinum
Judeus, negros e gays
Aguardam sua vez

Desculpe-nos, matamos seu deus
Há muito, muito tempo atrás
Mas cada soldado morto no Iraque
Mata o deus interior que ainda vive

A verdade jaz debaixo do choro
Com o medo, a casca do luto vira couro

Então seja afeminado
Assuma um jeito viado
Cante uma canção libertina
E dance com saia de menina

Bandidos roubam o estoque de liberdade
O rico ganha palmas, o pobre, sete palmos
E o deus que abençoa isso
Não é deus, é discurso vazio

Então seja um afeminado
Cante essa canção libertina
Maricas e altivos
Nunca fugiríamos da guerra

Com o medo, a casca do luto vira couro
A verdade jaz debaixo do choro

* “Girly Men” foi a expressão que o então governador da Califórnia – Arnold Schwarzenegger – usou para se referir a quem era contra a chamada “Guerra ao Terror”.


ORIGINALMENTE POSTADO EM:
http://sandroornellasblogue.wordpress.com/2012/12/30/a-balada-dos-afeminados/

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Miau

Curitiba, sábado, 01 de agosto.

Gato Preto.

Luciano e eu sentados na mesa. Lado a lado. Uma mulher se aproxima. Ela se agacha no espaço entre nossos corpos, com as mãos apoiadas no encosto de nossas cadeiras, e diz: "olá, rapazes. Vamos fazer um sexo bem gostoso? Nós três?". Luciano sorri, abobalhado. Por um segundo eu não sei o que dizer, mas digo: "hoje não vai dar, obrigado". "Amanhã, então?" - ela pergunta com um leve sorriso no rosto. "Amanhã. Quem sabe?!" - dizemos.

Essa foi a primeira vez que me vi incluído numa possibilidade de relação heterossexual. 

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Sonho

sonhei que a cena do texto romance era uma simulação de sexo.

o principal é conseguir fazer com que o público visualize o outro a partir da movimentação do meu corpo no espaço.

gesto como consequência do gesto do outro.

será?

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Hija de Perra

"Na minha infância nunca me identifiquei com este binarismo, sentia que naturalmente encaixava
em outra situação muito mais harmônica, e brinquei os jogos infantis de ambos os lados, entre
jogar futebol, brincar com barbies, beijar garotas e garotos, definitivamente minha infância foi
sensacional, plural e nunca nenhum garoto me insultou, ao contrário, tudo transcendia muito
naturalmente dentro do livre fluir da vida.

Na década de 80, aos 5 anos de idade, me inscreveram por obrigação em um colégio católico só
de homens. A situação em si me parecia bem estapafúrdia. Todas as manhãs rezava à Virgenzinha
para que me converte-se em princesa e quando meus compainheirinhos de curso brincavam de
guerra das galáxias eu era sempre a princesa Leia. Sempre que tomava a mão dos meninos aos
quais sentia atração, a professora gritava de longe “os meninos não andam de mãos dadas”... minha
mente ignorante da heteronorma não compreendia esses gritos que impediam minhas liberdades
infantis naturais"

"Soltei meu cabelo, me vesti de rainha, coloquei saltos, me pintei e era linda, caminhei até a porta,
senti me gritarem, mas os seus cadeados já não podiam me parar e olhei a noite que já não era
escura, era de lantejolas!!!"

Hija de Perra.

Interpretações imundas de como a Teoria Queer coloniza nosso contexto sudaca, pobre de aspirações e terceiro-mundista, perturbando com novas construções de gênero aos humanos encantados com a heteronorma.

Posso pular essa?

O corpo guarda tudo. Passado, presente, futuro. O corpo guarda tudo. Seu cheiro, sua boca, seu sorriso e suas dobras. Seu papo furado, seu ar intelectual, andar engraçado, quase descompromissado. Sei de cada esquina sua, cada aperto meu, todo canto nosso. Sei da rua nova, da mudança atravessada pelo tempo, dos livros ainda dentro das caixas e da mesa que volta, ainda esse mês, pra casa dos seus pais. Suco de laranja de caixinha na geladeira - eu jamais acertaria. Você me surpreende as vezes. Onde a pia faz esquina, o mármore frio, minha mão gelada e uma conversa sobre arranhões. Acho que bebi uns cincos copos dágua por medo de não saber o que dizer. Me excitei. Fiquei de pau duro.  A incerteza me desconcerta. O barulho do filtro era estranho, ele começava a gemer antes da água sair. O filtro anunciava o esforço, o trabalho, o caminho percorrido pela água até o copo. Processo de purificação - de alta qualidade - com adesivo de garantia e tudo. Tem nome esse artista? É meu você responde e eu, mais uma vez, finjo não saber o que dizer. As poltronas velhas, o verde das plantas e a luminária com dois corações - um rosa e o outro, é claro, azul. Penso em discordar, em dizer que é um objeto repugnante, que sugere uma série de mentiras sobre o amor e sobre o encontro de duas pessoas. Mas penso que encontros podem se dar com mais de duas pessoas e não digo nada. Tem duas pastas de dentes novas no banheiro mas não tem escova extra. Não recebe ninguém, a casa não está preparada para o inesperado. Diz que se eu for de noite também vai gostar. Vou só de madrugada, prefiro a escuridão. Depois da cerveja tem vinho. Não quero. Gim tônica. Quero pouco, fico louca fácil, não quero perder as imagens. Não dorme aqui que a mãe vem amanhã cedo e junto dela a avó. Não durmo. Não quero família nem apresentações. Quero seus braços, seu corpo se contorcendo, pedindo mais, suportando pouco. Os mais novos são mais resistentes. Do que ele está falando? Os quadros no chão revelam a ideia de uma decoração que ainda está para ser. Tudo lá é assim, muito diferente de como é aqui. Lá tem cara de projeto, aqui tem cara de agenda. Seu cabelo está grande, ouve essa música aqui, não gosta da nova rainha dos raios. Diz que sou bem vindo de volta, que pensou muitas vezes nisso - nisso de nos termos de novo. E você, pensou? Na hora não lembro, não sei, não sei se prefiro lembrar que um dia... Cinco e quarenta da manhã. O tempo sempre passou depressa com a gente. Nunca vou me esquecer da primeira vez que lhe deixei ir embora, da carona no carro, da traição na piscina e do flerte quase infantil no supermercado. Eu nunca gostei de arranhões mas você me diz com tanta certeza que eu quase acredito, mudo de opinião. Todas as tatuagens eram novas apesar do desbotado das cores. Você devia ter cortado o cabelo essa semana. Pede um táxi, me ensina o caminho, péra, não precisa. Aqui é perto dá pra ir andando. Vou de táxi, cê sabe. Amanhã a gente vai no fazendinha, vê se aparece. Vejo. Apareço. Desço de escada. O porteiro tem o rosto deformado mas é lindo. Meu dels, que homem lindo. Ele sorri, eu digo bom dia. Ele diz que tá frio essa manhã. Eu sinto.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Exercício de roteiro.

Possibilidades de Roteiro:

- prólogo: Xuxa em vídeo (txt: sou eu tia, maria da graça...);
- transição de luz para cena;
- txt alterosa + partitura alterosa repaginada + primeiro strip-tease;
- célula coreográfica princesas, primeira parte, uma ou duas máscaras;
- música: milkshake com glitter;
- txt sonhado antes.