Sonho Alterosa é uma investigação cênico-científica-performativa-transviada-bizarra borrada pelo tensionamento que emerge do encontro de dois universos: a ambiência dos contos de fada e a resistência da bicha efeminada. O projeto teve início em junho de 2013 como parte integrante da pesquisa de doutorado do artista pesquisador Caio Riscado.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Berenice, senta aqui.

Essa história não é sobre paixão, amor, prazer ou literatura. Quando olho para trás só vejo futuro, tal qual o via nos olhos do menino. E também não é sobre refazer, reviver ou trazer a tona. Tem coisas que a gente faz porque faz. Ou melhor, porque é preciso fazer. Então também é sobre todas as coisas que eu disse que não era. Isso porque eu queria dizer umas coisas cruéis, fazer doer com as palavras, machucar o corpo. Eu queria gritar, dizer poucas e boas, chacoalhar a moral e gozar na cara da cidade. Me lambuzar todinha, cortar os pulsos, sangrar a pele e arranhar as costas.

Eu pensei em usar velas, chicote, amarras, cinto, cinta, fivela e gente gemendo. Babar umas coisas, sujar o chão, abusar de frutos estranhos e cheiros ruins. Pensei um montão de coisas desse tipo, mas isso não se parece comigo. Essas coisas não me emocionam, elas não me excitam. Acho que eu sou uma pessoa romântica, um pouco antiquada, cafona e ridícula. Um pouco bocó, do tipo que chora à toa e detesta confusão. Sabe?

Então eu decidi que vou usar flores, vou dizer umas poesias, por uma música e chorar baixinho bem ali: no canto da sala. Eu vou me deitar no chão, deixar o meu corpo pesado e, em seguida, mover os braços lentamente. Eu vou abraçar o espaço como quem abraça uma pessoa querida e esse gesto vai durar um tempo. Indeterminado. Aí eu vou descansar os braços e ficar ali quietinho, pensando, só pensando na falta que você me faz. Algumas coisas vão passar pela minha cabeça, eu sei que vou projetar imagens e tudo o que eu vou ver é concreto. Eu vou sentir o calor do seu corpo, o compasso desorientado da sua respiração e o cheiro da sua pele. Eu vou tentar te acompanhar, colar o meu corpo no seu, eu vou pensar que você é meu - só por esse instante, provisoriamente. Eu vou envolver o seu rosto com as minhas mãos, olhar nos seus olhos, tocar nos seus lábios e sorrir de levinho. Se você sorrir de volta, eu vou lhe acariciar a face, passar os meus dedos por suas sobrancelhas e na maçã do rosto. Aí eu vou beijar a sua boca, lamber a sua língua e beber da sua saliva. Você... Você vai sentir o gosto amargo do cigarro que eu acabei de fumar misturado com o doce do céu da minha boca. Eu vou apertar os seus braços e, enquanto te beijo, pressionar o seu corpo contra o meu. Eu vou calar a tua pressa com o meu suor e lhe dizer jujuba como quem diz eu te amo: e-u-t-e-o-d-e-i-o.

Depois eu vou estar no mar e de dentro d'água vou ver você na pedra enrodilhado como um fauno menino, admirando o horizonte. Você vai me dizer para olhar a lua e eu que não sei dar valor a natureza vou ficar sem graça. Nessa hora, talvez, você desista de ter filhos comigo. Mas uma sereia vai passar e o mar vai ficar agitado fazendo com que as ondas batam mais forte na pedra. A espuma da água vai respingar em você e você vai esquecer... 

Aí eu vou sair do mar: nu e ereto. Vou balançar os cabelos que não tenho e me sacudir feito um cachorro hidrófobo. Eu vou latir pra você, meu bem, e vou caminhar na sua direção. Eu vou me sentar ao seu lado e nós vamos deitar na pedra juntos. E esse gesto vai durar um tempo. Indeterminado. Quando você pensar em ir embora eu vou te segurar pelos cabelos e nós vamos fazer sexo, bêbados.

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