“Esse termo, abjeção, se refere ao espaço a que a coletividade costuma relegar aqueles e aquelas que considera uma ameaça ao seu bom funcionamento, à ordem social e política” (MISKOLCI, 2012, p. 24). A vivência da abjeção está inscrita nos corpos de todos aqueles e aquelas que não correspondem às expectativas do padrão dominante. São sujeitos que rompem com as normas de gênero, com o sistema binário generalizante, e por essa razão são cotidianamente atingidos pela violência física e simbólica gerada pela ordem sexual do presente: a heteronormatividade. Vale ressaltar que neste trabalho consideramos o termo abjeto como sinônimo da experiência que é tida como repulsiva, horrível, incompreensível, mas ainda assim catalogável. O sujeito abjeto não está além ou fora das categorias (re)conhecidas pela inteligibilidade social (JUNIOR, 2012). Explico: apesar de se desviar dos ditos “gêneros inteligíveis”, do masculino e do feminino, e ser tratado de forma inferiorizada, o sujeito abjeto não escapa de ser enquadrado pelo dominante em uma outra cela específica: a categoria de monstro. Nos limites deste trabalho, a categoria monstro, de existência rotulada como bizarra, pode ser também compreendida como um reflexo da retórica da diversidade que quer manter “cada um no seu quadrado”. A retórica da diversidade está atrelada à noção de tolerância e convívio, mantendo cada sujeito em um determinado grupo (ou gueto) criado a partir da catalogação de uma identidade ou prática sexual. Tolerar é diferente de reconhecer o outro, de valorizá-lo em sua especificidade, em sua diferença. Nesse mesmo sentido, a ideia de conviver com a diversidade também não significa reconhecê-la, pois a noção de diversidade fortalece a ideia de que uma parcela de pessoas se desvia da norma e, por isso, deve ser tolerada. Ou seja, o rótulo da diversidade só localiza o desviante porque antes considera um padrão, uma norma. E é a partir desse padrão que as outras identidades são classificadas e transformadas em monstruosas. A guetização dos corpos articula silenciosamente o plano de homogeneizar práticas e identidades, mantendo as relações de poder intocadas. Assim sendo, restam para a categoria dos monstros todos aqueles e aquelas que não se sentem representados pela política identitária universalista, que transgridem as homossexualidades já padronizadas e a ordem heteronormativa vigente. Por conta desse processo de desidentificação, esses sujeitos são desumanizados pelo dominante, relegados da sociedade e enclausurados no gueto do horror.
Sonho Alterosa é uma investigação cênico-científica-performa tiva-transviada-bizarra borrada pelo tensionamento que emerge do encontro de dois universos: a ambiência dos contos de fada e a resistência da bicha efeminada. O projeto teve início em junho de 2013 como parte integrante da pesquisa de doutorado do artista pesquisador Caio Riscado.
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segunda-feira, 5 de outubro de 2015
Conversando com Berenice
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segunda-feira, 6 de julho de 2015
Hija de Perra
"Na minha infância nunca me identifiquei com este binarismo, sentia que naturalmente encaixava
em outra situação muito mais harmônica, e brinquei os jogos infantis de ambos os lados, entre
jogar futebol, brincar com barbies, beijar garotas e garotos, definitivamente minha infância foi
sensacional, plural e nunca nenhum garoto me insultou, ao contrário, tudo transcendia muito
naturalmente dentro do livre fluir da vida.
Na década de 80, aos 5 anos de idade, me inscreveram por obrigação em um colégio católico só
de homens. A situação em si me parecia bem estapafúrdia. Todas as manhãs rezava à Virgenzinha
para que me converte-se em princesa e quando meus compainheirinhos de curso brincavam de
guerra das galáxias eu era sempre a princesa Leia. Sempre que tomava a mão dos meninos aos
quais sentia atração, a professora gritava de longe “os meninos não andam de mãos dadas”... minha
mente ignorante da heteronorma não compreendia esses gritos que impediam minhas liberdades
infantis naturais"
"Soltei meu cabelo, me vesti de rainha, coloquei saltos, me pintei e era linda, caminhei até a porta,
senti me gritarem, mas os seus cadeados já não podiam me parar e olhei a noite que já não era
escura, era de lantejolas!!!"
Hija de Perra.
Interpretações imundas de como a Teoria Queer coloniza nosso contexto sudaca, pobre de aspirações e terceiro-mundista, perturbando com novas construções de gênero aos humanos encantados com a heteronorma.
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