Sonho Alterosa é uma investigação cênico-científica-performativa-transviada-bizarra borrada pelo tensionamento que emerge do encontro de dois universos: a ambiência dos contos de fada e a resistência da bicha efeminada. O projeto teve início em junho de 2013 como parte integrante da pesquisa de doutorado do artista pesquisador Caio Riscado.
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terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Era para ser Gabi mas virou isso aqui.

Eu, largado em minha homossexualidade pulsante, meu tom de fala de gralha, o corpo peludo que só tocando, de uma magreza desengonçada e uma ansiedade do tamanho do mar. Eu, sentada em minha cadeira de madeira, de frente para o computador, fumando um cigarro, vários cigarros, descobrindo outros nomes, outras possibilidades, outras formas para aquilo que, aos poucos, vou descobrindo ser eu mesmo.


Eu e uma enorme e nova rede de conhecimento a ser explorada, devorada, contestada. Eu que me autoidentifico como gay quando politicamente conveniente para o combate, que sou travesti de alma, trans*sensível por posicionamento e atitude política, mulher por construção gestual e repetição natural daquilo que sempre entendi como casa, eu minha mãe, minhas madrinhas, minhas amigas e as divas da música popular brasileira. Eu, sentada em minha cama, abarrotada de livros e ideias, coçando as pernas por não poder coçar o ar, buscando entender o porque de tanto sofrimento, de tanta provocação e angústia.

Eu, mergulhada em uma piscina de purpurina, do gozo profundo do pau do cavalo garanhão, do tiro de champanhe barata, das borbulhas de amor e tesão ao som da música mais mela cueca brasileira da porra do mimimi hipster. Eu, embasbacada com tanta violência, armada em beleza monstruosa, em saltos-altos e mini saias, perucas desgrenhadas e próteses animalescas. Eu, rebolativa, fechativa, lacrativa, terceiro mundo, bicha, bichinha, boiola, viadona, viadão. Eu estou tentando entender a máquina para destruí-la por dentro. Aos poucos, mas destruí-la.