Sonho Alterosa é uma investigação cênico-científica-performativa-transviada-bizarra borrada pelo tensionamento que emerge do encontro de dois universos: a ambiência dos contos de fada e a resistência da bicha efeminada. O projeto teve início em junho de 2013 como parte integrante da pesquisa de doutorado do artista pesquisador Caio Riscado.
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quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Considerações.

Breves considerações sobre a primeira temporada de Sonho Alterosa no Reduto.

- estar em cartaz é realmente uma loucura. É preciso (re)pensar todos os dias o trajeto interior do espetáculo para que ele possa, mais uma vez, ser exterior. Tenho adotado práticas silenciosas como passar os textos no banho, passar os textos em diferentes ritmos durante alguns deslocamentos do dia como no ônibus, no táxi e na rua ou então quando passo algum exercício para os meus alunos. Gosto de passar mentalmente os movimentos, as partituras e as marcas que temos sugeridas. (re)faço o meu trajeto inteiro, todos os dias, sempre antes de entrar em cena. Tem sido bom.

- o primeiro momento em cena é realmente impressionante. Acho que não vou deixar de estar nervoso em nenhum dia. As mãos tremem, o braço fica instável e fico sentindo o balançar irritante da peruca e da coroa. Sinto que o público me vê nervoso, percebe o meu estado. Assim sendo, busco fazer um esforço enorme para justamente dividir esse nervosismo, esse não saber, essa energia que me invade em todos os dias que é preciso (re)começar. Adoto a palavra "compartilhar" como chave desse momento e trabalho sobre e com ela.

- não sei atuar. Não me sinto ator. Acho que na verdade nunca fui um profissional da atuação. Sou performer, sou corpo em fluxo, jogado no vento, explodido entre os acasos da vida e também de outros tempos. Com isso, cada formação de plateia me atravessa de um jeito. Todos os dias o espetáculo tem sido realmente diferente. Sinto que presenças afetivas entre os espectadores costumam me emocionar mais. Desconhecidos me desafiam e, quase sempre, busco os seus olhares como pontos de retorno. É sempre bom ter morada, ter para onde voltar. Nessas casos, minhas moradas preferidas são as dos olhos virgens, olhos que nunca estive e que também nunca me tiveram... Olhos desconhecidos para compor com palavras e afetos, olhos desconhecidos para atravessar. Lentamente.

- continuo sendo a mesma bicha de sempre. Flerto durante quase todo o espetáculo. O momento do chá é o meu predileto. Gosto de estar ali, sentada, com Berenice, com o bolinho, com os braços apoiados na cadeira. Me sinto a cada apresentação mais confortável, mais em casa, mais na rua, mais no tempo, mais jogado na palavra-vento-solidão. E, de novo, os olhos. São os olhos dos espectadores que literalmente fazem essa cena comigo. Se me demoro, é porque parece que tenho aval para demorar. Se passo rápido, se passo os olhos, é porque parece que machuco, que ainda não posso pousar. Se em troca do meu olhar recebo dúvida, espero, olho de novo, investigo, estudo e peço passagem. Por aqui? Por aqui é seguro? Pra mim ou pra você? Tanto faz, tanto fez. (des)caminhos.

- a recepção homossexual masculina é um capítulo a parte. Escrevo aqui só como lembrete pois jamais poderia deixar de abordar esse ponto no desenvolvimento da tese. Existe uma espécie de homosociabilidade masculina que destila erotismo, prazer e poder durante o espetáculo. Alguns me estudam, outros me devoram. Assim como também alguns me ignoram, outros me diminuem, disputam comigo sua viadice. É uma ambiência afetada, efeminada, debochada e cafona. Algumas gays choram muito. Mas seria impossível dizer em que partes do espetáculo... Isso vai mesmo de cada um, de cada história, de cada aparelho íntimo e psíquico, de cada desejo de transferência, afetação e diálogo.

- tem dias que algumas estratégias de enunciação não funcionam. Não vou listá-las aqui pois ainda não sei a razão do não funcionamento. Tenho palpites e vou continuar pesquisando sobre eles nesse último final de semana da temporada. 

- já tenho saudades do cenário, do tapete redondo e do sofá cheio de almofadas. Tem coisas que ninguém sabe. São coisas pequenas, descobertas inusitadas, atalhos, brechas. Gosto quando me vejo no espelho que comprei em SP; muitos dias faço uma careta pra Barbie sereia que fica perto da caixinha em formato de concha; aliso os cabelos da boneca do sofá e tenho inveja da bota da boneca que fica na ponto do avião; quando dialogo com Berenice no microfone do avião eu estou de olhos fechados; no sofá, o cavalo marinho é meu príncipe; sempre que deito olho para os pés do Lucas; jamais esquecerei dos olhos do Phil; tenho verdadeira coceira nos pés quando tiro os sapatos; alguns dias sinto frio durante a partitura da placa; sinto fome no ventilador e sempre penso que deveria ter bebido mais um gole dágua; morro de medo do meu colar não soltar; sempre penso que a peruca vai cair na hora do lustre e foi esse sentimento que trouxe a intonação que estou dando para essa parte específica da fala; sempre que falo da grinalda busco olhar para alguém que "pareça" ter vontade de casar (risos); na Saritinha morro de medo de esquecer o texto e em todo intervalo ou pausa me lembro do que vem logo em seguida; morro de calor com o manto da Saritinha; o saco plástico nunca deu certo mas eu prefiro assim, fica feio, fica sujo, fica errado; eu gosto dos erros.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Era para ser Gabi mas virou isso aqui.

Eu, largado em minha homossexualidade pulsante, meu tom de fala de gralha, o corpo peludo que só tocando, de uma magreza desengonçada e uma ansiedade do tamanho do mar. Eu, sentada em minha cadeira de madeira, de frente para o computador, fumando um cigarro, vários cigarros, descobrindo outros nomes, outras possibilidades, outras formas para aquilo que, aos poucos, vou descobrindo ser eu mesmo.


Eu e uma enorme e nova rede de conhecimento a ser explorada, devorada, contestada. Eu que me autoidentifico como gay quando politicamente conveniente para o combate, que sou travesti de alma, trans*sensível por posicionamento e atitude política, mulher por construção gestual e repetição natural daquilo que sempre entendi como casa, eu minha mãe, minhas madrinhas, minhas amigas e as divas da música popular brasileira. Eu, sentada em minha cama, abarrotada de livros e ideias, coçando as pernas por não poder coçar o ar, buscando entender o porque de tanto sofrimento, de tanta provocação e angústia.

Eu, mergulhada em uma piscina de purpurina, do gozo profundo do pau do cavalo garanhão, do tiro de champanhe barata, das borbulhas de amor e tesão ao som da música mais mela cueca brasileira da porra do mimimi hipster. Eu, embasbacada com tanta violência, armada em beleza monstruosa, em saltos-altos e mini saias, perucas desgrenhadas e próteses animalescas. Eu, rebolativa, fechativa, lacrativa, terceiro mundo, bicha, bichinha, boiola, viadona, viadão. Eu estou tentando entender a máquina para destruí-la por dentro. Aos poucos, mas destruí-la.