"E nessa guerra travada contra mim, uma criança efeminada (SEDGWICK, 1991), havia um exército de afetação que poderia me salvar?"
Quando se tem quatorze anos e o seu corpo não corresponde ou obedece às pedagogias de masculinização, o embate é cotidiano. Em casa, na escola e na rua. A rua é, por excelência, o espaço onde essa marca da diferença é ressaltada sem o consolo de voltar ao lar, pedir colo e contar à mãe e ao pai as coisas horríveis que nos disseram. Demorou uns anos para eu aprender a revidar como a Paulette de Tatuagem (2013, Hilton Lacerda): “Tu descobristes o mundo?”. Transformar-se em Jacira é um processo longo, doloroso e solitário. Se quando eu era uma mocinha tivesse visto meia dúzia de vídeos no youtube e memes, Madame Satã (2002, Karim Aïnouz) ou Paris is Burning (1990, Jennie Livingston), eu não pediria a Deus pela morte, eu rezaria para ser assim, fabulosa.
Além de bicha, outra palavra temida por mim era o cu. Quando mocinha, eu não conhecia o trabalho
do professor Guy Hocquenghem, logo eu não poderia imaginar que o cu era revolucionário. Mas sempre me perguntei o porquê de tudo acabar no cu. Tomar no cu, enfiar no cu, vigiar o cu. Somos obcecados pelos “cus” alheios. Em que pese os elementos acachapantes dados ao cu, uma outra injustiça delegada ao campo da nossa reconstrução subjetiva é nos definirem como um grande cu, expelindo o abjeto e o espúrio. Que delícia poderia ser um cu não normatizado, livre de barreiras higienistas e com a atribuição de comportar todos os políticos corruptos ou indecentes de nosso país. No cu não Brasil, sempre pensava ao ouvir um “ei fulano, vai tomar no cu”. Precisamos de cus milagrosos, como o de Thiaga2, musa do Facebook. Ou o cu da Tabu, de Madame Satã" (p.103).
"É preciso muita ferveção para se levantar da cama e seguir a vida. Tomamos as ruas, botamos a cara no sol, brilhamos nas praças com purpurina e ao som de “Faraó, Divindade do Egypto... E maramaramara maravilha ê”. Mas ainda olhamos, atônitos, pessoas transhumilhadas e violentadas, física e simbolicamente. Na vala comum da memória são enterrados tantos corpos, tantas lutas e vozes...Tantos afetos que se despedaçam e viram paixões tristes. O ódio à criança efeminada ou à menina masculinizada se aproxima agora de nossos corpos adultos. Somos nós, os próximos?" (p.104).
"A homofobia tão de perto, tão do nosso lado, denuncia a nossa fragilidade e vulnerabilidade. Um mundo onde apenas o existir fora dos marcos da performance heterossexual é suficiente para que você morra. Onde o corpo revela as marcas de sua sexualidade e essas marcas podem despertar atitudes brutais, que ceifam vidas, apagam sorrisos" (p.104).
"Somos estranhas, diferentes, guerrilheiras e pão com ovo. Nossas armas são nossos corpos, nossos sonhos e nosso mundo. Descolonizar nossos corpos, nossos cus e nossos desejos. Despir-nos dos privilégios, da brancura, do consumo e do sexo baunilha são nossos desafios. Transformarmo-nos em Manas de cus, uma teia de solidariedade e de afetos anais. Buscar uma Justiça erótica, como já nos disse Gayle Rubin (1989). Que o nosso cu não nos defina, mas que nos impulsione para a vida" (p.105).
RIBEIRO, Vinicios. Meu cu faz milagre ou Je suis Jaciras.
New Queer Cinema, 2015.
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