Corpos movendo impulsos patologizados pelas ciências médicas e "psis". Corpos movendo singularidades, desvios da norma reguladora, da política dos corpos "normais", da polícia dos corpos saudáveis. O riso que vem da platéia, as centenas de aplausos em cena aberta e os gritos de aprovação... Tudo isso vem de onde? Eu também estava lá e por vezes também estava rindo. Não me excluo da reflexão. Sou uma pessoa em movimento, buscando pelo aprimoramento das minhas ideias e posicionamento político. A massa assistia aos "desabilitados" e parecia impor-lhes o seu desejo por superação. Façamos a pergunta: quem está superando e o quê está em jogo? O circo está no palco ou nas cadeiras da platéia abarrotada de corpos também imperfeitos mas retocados e maquiados? Rir do outro mas sem o outro? Queria ter rido mais COM do que DE. Rimos por aflição, desconforto, pena, aprovação? Será mesmo preciso do palco para destacar esses corpos e mostrar que eles também passam pelas ruas, bairros, cidades, meios de transporte? Será mesmo preciso da caixa preta, dessa separação palco-plateia para compreendermos que não somos todos iguais mas sim potencialmente diferentes? Como falar das diferenças sem exotizá-las? Até que ponto expor o oprimido não é (re)afirmar o lugar do opressor? O que me conforta é que pude perceber, mesmo que superficialmente, que os atores do espetáculo "Disabled Theater", de Jérôme Bel, parecem estar a vontade e se divertindo em cena. Além de tudo o que podemos dizer, cabe somente aos artistas decidirem como querem se expressar e em que tipo de obra querem estar. Não se trata de gostar ou não do espetáculo, mas de transformar cada microgargalhada em uma macroreflexão. Jérôme Bel fez sua tentativa. E toda tentativa é um convite para o nascimento de outras. Eu gosto assim.
- precisei dividir. tá remexendo aqui dentro até agora.
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