Quero uma árvore cheia de passarinhos.
Quero o maior número de bichos possíveis.
Quero tucano, cobra, porco e girafa.
Tudo em cena.
UMA BICHARADA.
obs: Victor, que bom que já temos um cavalo-marinho.
Sonho Alterosa é uma investigação cênico-científica-performa tiva-transviada-bizarra borrada pelo tensionamento que emerge do encontro de dois universos: a ambiência dos contos de fada e a resistência da bicha efeminada. O projeto teve início em junho de 2013 como parte integrante da pesquisa de doutorado do artista pesquisador Caio Riscado.
terça-feira, 21 de julho de 2015
quarta-feira, 15 de julho de 2015
Serenata
Quero cantar Nuvem de Lágrimas como numa serenata para Jesus Cristo.
no microfone.
no microfone.
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terça-feira, 14 de julho de 2015
Meu cu
"E nessa guerra travada contra mim, uma criança efeminada (SEDGWICK, 1991), havia um exército de afetação que poderia me salvar?"
Quando se tem quatorze anos e o seu corpo não corresponde ou obedece às pedagogias de masculinização, o embate é cotidiano. Em casa, na escola e na rua. A rua é, por excelência, o espaço onde essa marca da diferença é ressaltada sem o consolo de voltar ao lar, pedir colo e contar à mãe e ao pai as coisas horríveis que nos disseram. Demorou uns anos para eu aprender a revidar como a Paulette de Tatuagem (2013, Hilton Lacerda): “Tu descobristes o mundo?”. Transformar-se em Jacira é um processo longo, doloroso e solitário. Se quando eu era uma mocinha tivesse visto meia dúzia de vídeos no youtube e memes, Madame Satã (2002, Karim Aïnouz) ou Paris is Burning (1990, Jennie Livingston), eu não pediria a Deus pela morte, eu rezaria para ser assim, fabulosa.
Além de bicha, outra palavra temida por mim era o cu. Quando mocinha, eu não conhecia o trabalho
do professor Guy Hocquenghem, logo eu não poderia imaginar que o cu era revolucionário. Mas sempre me perguntei o porquê de tudo acabar no cu. Tomar no cu, enfiar no cu, vigiar o cu. Somos obcecados pelos “cus” alheios. Em que pese os elementos acachapantes dados ao cu, uma outra injustiça delegada ao campo da nossa reconstrução subjetiva é nos definirem como um grande cu, expelindo o abjeto e o espúrio. Que delícia poderia ser um cu não normatizado, livre de barreiras higienistas e com a atribuição de comportar todos os políticos corruptos ou indecentes de nosso país. No cu não Brasil, sempre pensava ao ouvir um “ei fulano, vai tomar no cu”. Precisamos de cus milagrosos, como o de Thiaga2, musa do Facebook. Ou o cu da Tabu, de Madame Satã" (p.103).
"É preciso muita ferveção para se levantar da cama e seguir a vida. Tomamos as ruas, botamos a cara no sol, brilhamos nas praças com purpurina e ao som de “Faraó, Divindade do Egypto... E maramaramara maravilha ê”. Mas ainda olhamos, atônitos, pessoas transhumilhadas e violentadas, física e simbolicamente. Na vala comum da memória são enterrados tantos corpos, tantas lutas e vozes...Tantos afetos que se despedaçam e viram paixões tristes. O ódio à criança efeminada ou à menina masculinizada se aproxima agora de nossos corpos adultos. Somos nós, os próximos?" (p.104).
"A homofobia tão de perto, tão do nosso lado, denuncia a nossa fragilidade e vulnerabilidade. Um mundo onde apenas o existir fora dos marcos da performance heterossexual é suficiente para que você morra. Onde o corpo revela as marcas de sua sexualidade e essas marcas podem despertar atitudes brutais, que ceifam vidas, apagam sorrisos" (p.104).
"Somos estranhas, diferentes, guerrilheiras e pão com ovo. Nossas armas são nossos corpos, nossos sonhos e nosso mundo. Descolonizar nossos corpos, nossos cus e nossos desejos. Despir-nos dos privilégios, da brancura, do consumo e do sexo baunilha são nossos desafios. Transformarmo-nos em Manas de cus, uma teia de solidariedade e de afetos anais. Buscar uma Justiça erótica, como já nos disse Gayle Rubin (1989). Que o nosso cu não nos defina, mas que nos impulsione para a vida" (p.105).
RIBEIRO, Vinicios. Meu cu faz milagre ou Je suis Jaciras.
New Queer Cinema, 2015.
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quarta-feira, 8 de julho de 2015
Sonho
sonhei que a cena do texto romance era uma simulação de sexo.
o principal é conseguir fazer com que o público visualize o outro a partir da movimentação do meu corpo no espaço.
gesto como consequência do gesto do outro.
será?
o principal é conseguir fazer com que o público visualize o outro a partir da movimentação do meu corpo no espaço.
gesto como consequência do gesto do outro.
será?
segunda-feira, 6 de julho de 2015
Hija de Perra
"Na minha infância nunca me identifiquei com este binarismo, sentia que naturalmente encaixava
em outra situação muito mais harmônica, e brinquei os jogos infantis de ambos os lados, entre
jogar futebol, brincar com barbies, beijar garotas e garotos, definitivamente minha infância foi
sensacional, plural e nunca nenhum garoto me insultou, ao contrário, tudo transcendia muito
naturalmente dentro do livre fluir da vida.
Na década de 80, aos 5 anos de idade, me inscreveram por obrigação em um colégio católico só
de homens. A situação em si me parecia bem estapafúrdia. Todas as manhãs rezava à Virgenzinha
para que me converte-se em princesa e quando meus compainheirinhos de curso brincavam de
guerra das galáxias eu era sempre a princesa Leia. Sempre que tomava a mão dos meninos aos
quais sentia atração, a professora gritava de longe “os meninos não andam de mãos dadas”... minha
mente ignorante da heteronorma não compreendia esses gritos que impediam minhas liberdades
infantis naturais"
"Soltei meu cabelo, me vesti de rainha, coloquei saltos, me pintei e era linda, caminhei até a porta,
senti me gritarem, mas os seus cadeados já não podiam me parar e olhei a noite que já não era
escura, era de lantejolas!!!"
Hija de Perra.
Interpretações imundas de como a Teoria Queer coloniza nosso contexto sudaca, pobre de aspirações e terceiro-mundista, perturbando com novas construções de gênero aos humanos encantados com a heteronorma.
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Posso pular essa?
O corpo guarda tudo. Passado, presente, futuro. O corpo guarda tudo. Seu cheiro, sua boca, seu sorriso e suas dobras. Seu papo furado, seu ar intelectual, andar engraçado, quase descompromissado. Sei de cada esquina sua, cada aperto meu, todo canto nosso. Sei da rua nova, da mudança atravessada pelo tempo, dos livros ainda dentro das caixas e da mesa que volta, ainda esse mês, pra casa dos seus pais. Suco de laranja de caixinha na geladeira - eu jamais acertaria. Você me surpreende as vezes. Onde a pia faz esquina, o mármore frio, minha mão gelada e uma conversa sobre arranhões. Acho que bebi uns cincos copos dágua por medo de não saber o que dizer. Me excitei. Fiquei de pau duro. A incerteza me desconcerta. O barulho do filtro era estranho, ele começava a gemer antes da água sair. O filtro anunciava o esforço, o trabalho, o caminho percorrido pela água até o copo. Processo de purificação - de alta qualidade - com adesivo de garantia e tudo. Tem nome esse artista? É meu você responde e eu, mais uma vez, finjo não saber o que dizer. As poltronas velhas, o verde das plantas e a luminária com dois corações - um rosa e o outro, é claro, azul. Penso em discordar, em dizer que é um objeto repugnante, que sugere uma série de mentiras sobre o amor e sobre o encontro de duas pessoas. Mas penso que encontros podem se dar com mais de duas pessoas e não digo nada. Tem duas pastas de dentes novas no banheiro mas não tem escova extra. Não recebe ninguém, a casa não está preparada para o inesperado. Diz que se eu for de noite também vai gostar. Vou só de madrugada, prefiro a escuridão. Depois da cerveja tem vinho. Não quero. Gim tônica. Quero pouco, fico louca fácil, não quero perder as imagens. Não dorme aqui que a mãe vem amanhã cedo e junto dela a avó. Não durmo. Não quero família nem apresentações. Quero seus braços, seu corpo se contorcendo, pedindo mais, suportando pouco. Os mais novos são mais resistentes. Do que ele está falando? Os quadros no chão revelam a ideia de uma decoração que ainda está para ser. Tudo lá é assim, muito diferente de como é aqui. Lá tem cara de projeto, aqui tem cara de agenda. Seu cabelo está grande, ouve essa música aqui, não gosta da nova rainha dos raios. Diz que sou bem vindo de volta, que pensou muitas vezes nisso - nisso de nos termos de novo. E você, pensou? Na hora não lembro, não sei, não sei se prefiro lembrar que um dia... Cinco e quarenta da manhã. O tempo sempre passou depressa com a gente. Nunca vou me esquecer da primeira vez que lhe deixei ir embora, da carona no carro, da traição na piscina e do flerte quase infantil no supermercado. Eu nunca gostei de arranhões mas você me diz com tanta certeza que eu quase acredito, mudo de opinião. Todas as tatuagens eram novas apesar do desbotado das cores. Você devia ter cortado o cabelo essa semana. Pede um táxi, me ensina o caminho, péra, não precisa. Aqui é perto dá pra ir andando. Vou de táxi, cê sabe. Amanhã a gente vai no fazendinha, vê se aparece. Vejo. Apareço. Desço de escada. O porteiro tem o rosto deformado mas é lindo. Meu dels, que homem lindo. Ele sorri, eu digo bom dia. Ele diz que tá frio essa manhã. Eu sinto.
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