Sonho Alterosa é uma investigação cênico-científica-performativa-transviada-bizarra borrada pelo tensionamento que emerge do encontro de dois universos: a ambiência dos contos de fada e a resistência da bicha efeminada. O projeto teve início em junho de 2013 como parte integrante da pesquisa de doutorado do artista pesquisador Caio Riscado.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

e uma tremenda vontade.

"aprendi tudo ao contrário depois. ser religioso é desenvolver uma mariquice no espírito. um medo pelo que não se vê, como ter medo do escuro porque o bicho-papão pode estar à espreita para nos puxar os cabelos. esperar por deus é como esperar pelo peter pan e querer que traga a fada sininho coma sua minissaia erótica tão desadequada à ingenuidade das crianças. o ser humano é só carne e osso e uma tremenda vontade de complicar as coisas" (Mãe, 2013, p.83).

MÃE, Valter Hugo. A máquina de fazer espanhóis. São Paulo: Cosac Naify, 2013.

jurando na loira com turbante




Fotos de Derek Mangabeira, Newlaje, 15/11/2014

domingo, 9 de novembro de 2014

Esconjuramento

O dramaturgo Gustavo Colombini cria o texto ESCONJURAMENTO a partir do seu contato com a performance Trans*corrimento Xoxotaço na mostra hífen de pesquisa-cena. Esconjuramento é lindo e corajoso. Me senti presenteado. Obrigado, Gustavo.

esconjuramento


Desaforado,
respirando muito,
um tropeço,
muita calma.

E a luz.
Pontilhada na vista, alaranjado-amarela.
De clarão.
E os sussurros.
De um canto gemido, em multivoz.
No chão.

Meu corpo explodido em vida,
Meu corpo vivendo de tanto ser visto,
Meu corpo morrendo.
Me esbarraram no corpo,
dolorido,
rolado abaixo,
no canto.

Caído no meio da gente toda em fila, caminhando lenta, de pouco em pouco.
Respirando melodia hipnótica.
Vendo céu, virando giro.
Atordoado.
O assombro daquela multidão trotando de pé no chão, desviando da barreira.
Não via rosto. Via só a cor do mundo numa só, arco-íris, preto-cinza, escuridão.
Quentura de vela, visão de fogo, aquele avermelhado dos olhos.
E o corpo moído, ralado de terra, querendo resposta, motivo e porquê.

Outro eu.

Tinha energia virando. Pra querer pedaço de volta.
Repedaço.
Pra evocar.
O teu tratado.
E seguindo a procissão, essa distante.
De onde você vê e larga um sorriso divinado, ressentido.
Teu presente. O bater desses pés no chão pedindo resposta.

Aparição.

Que o canto chegue cantado, como deve ser.
Vontade-carinho. Essa distância. E alcançar essa lonjura.
As bocas que andam resmungandozunindo, transfigurando.
Pros olhos que você já virou. Toma essa luz, solta em clarão.
Diz que vive ao som de reza.
Mandingaria.
Essa viadagem.
É teu povo guiando essa tristeza-carnaval.
Que não para.

Gente que entra gente e sai deus.
Gente que entra mancando e sai em revoada.
Gente que entra raposa e sai passarinho.
O canto pras mães que já morreram.
Que perderam os filhos por beleza demais.

Sublimação.

Pra cuidar dos filhos que ficaram.
Que só não levaram por amor.
O eco desse colo vazio.
Aquele adeus e cada um.
Essa procissão de gemido. Iluminando o caminho que leva, a passagem.
O canto que te evoca, bem pesado. Vem responder com chuva, com trovoada. Requiando um canto.
Fantasmagorizando essa saudade.
Uma energia tua entrando na pele.
Como abraço. Nesse círculo.

Eu cubro o sexo com as minhas dores.
E também com as dores de quem não podem mostrar que sentem dor.
Eu gozo em respeito ao meu corpo.
Eu gozo pelo seu direito de gozar.

Concentrando o olhovento.
Que te observo na nuvem. Trancada numa caixa.
A maquiagem sujando teu rosto
Teu lindo rosto sujo.
Nesse canto, recanto.
Pra evocar nessa nudez: o teu regresso. Em forma dágua. De dança. De silêncio.
Às mortes dos que só morrem de verdade.
Às mortes dos que morrem por amarem quem não podem.

Pois se chover, eu bebo cada gota. Com a esperança.
Pra chover pedaço de carne. E doer.
Como dói em mim.

Foi o corpo que levantou sozinho e respirou de novo.
E se despiu trinta e cinco vezes.
E se despiu por quem não pode se despir sem medo.

Eu não tenho mais medo de mim.

Vem de cura, nossa mãe.
Avisa a minha que sinto muito. Avisa a minha que ela é só minha.
Pra minha reza de deformação.
A caber de novo no seu útero.
Seu sexo.
Deduzo. A sua vera forma.
Eu que levantei e vi o visto, um vulto, passando através de mim.

Outro eu.
O teu pai que virou mãe.
O meu irmão que agora é tia.
A tua irmã que já é padrinho.

O corpo que era meu despertenceu.
A boca que era minha falou em outra voz.
Pra vir falar esse idioma de gozo.
Pra desfigurar meu corpo nessa transubstância.
Pra triturar meu rosto nessa terra uma vez mais.
E o ombro que não se mexia.
E o braço que não se mexia.
E a mão que não se mexia.
Sem dedo.
E um fogo passando no umbigo.
E o punho fincado lá dentro, revirando, remexendo.
Apertidão.

Um coração de mãe alargado. Elástico, pálido, plástico, seu nome em vermelho.
A devoção dessa mostra oca de gente-dor.
Vem pedindo seu colo vazio, seu murmuro desautorizado.
O carimbo da sua testa, repetido. A nuvem-sexo. Bloqueada no dente. A mordida.
Pra te cantar como hino.
E me respirar.
Essa mão fechada em soco. Rebolada.
Reticente.
Retirante.

Aos que podem amar quem já se ama.
O meu corpo é performance que carrego comigo.
O meu corpo é permanência que ameaça.
Essa demora, o meu sustento
Infenso, agressivo, (todo meu amor) inimigo.
Ensina essa gente a ter coragem.
Ensina essa gente a também virar fumaça.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

BRENDAN JORDAN - ARE YOU GAY?

Comentário_Xoxotaço


caio bemzinho, também adorei estar presente hahaha! Vou me autoparafrasear e transmitir minhas impressões sobre o xoxotaço rs: "sangue menstrual, símbolo de fertilidade ou de vida pulsante feminina, se faz ausente no corpo pálido dos indivíduos andróginos. E desprovidos de organicidade ou de naturalidade, a figura do híbrido, do travesti, do transex, do desviante, traça uma linha um percurso de chegada até a sua natureza, por meio da auto-mutilação. Ele se perfura, na esperança de pelo menos escorrer." Enfim, fiquei pensando bastante nesse limiar entre o prazer do gozo, e essa apaticidade! Hahaha essas foram as minhas piras, talvez elas não tenham nada a ver com nada, mas eu curti bastante mesmo. Confesso que fiquei angustiadíssimo com os olhares das pessoas que passavam na rua, até me preocupei com você hahaha

- comentário de Matheus Macena.

"Disabeld Theater", de Jérôme Bel.

Corpos movendo impulsos patologizados pelas ciências médicas e "psis". Corpos movendo singularidades, desvios da norma reguladora, da política dos corpos "normais", da polícia dos corpos saudáveis. O riso que vem da platéia, as centenas de aplausos em cena aberta e os gritos de aprovação... Tudo isso vem de onde? Eu também estava lá e por vezes também estava rindo. Não me excluo da reflexão. Sou uma pessoa em movimento, buscando pelo aprimoramento das minhas ideias e posicionamento político. A massa assistia aos "desabilitados" e parecia impor-lhes o seu desejo por superação. Façamos a pergunta: quem está superando e o quê está em jogo? O circo está no palco ou nas cadeiras da platéia abarrotada de corpos também imperfeitos mas retocados e maquiados? Rir do outro mas sem o outro? Queria ter rido mais COM do que DE. Rimos por aflição, desconforto, pena, aprovação? Será mesmo preciso do palco para destacar esses corpos e mostrar que eles também passam pelas ruas, bairros, cidades, meios de transporte? Será mesmo preciso da caixa preta, dessa separação palco-plateia para compreendermos que não somos todos iguais mas sim potencialmente diferentes? Como falar das diferenças sem exotizá-las? Até que ponto expor o oprimido não é (re)afirmar o lugar do opressor? O que me conforta é que pude perceber, mesmo que superficialmente, que os atores do espetáculo "Disabled Theater", de Jérôme Bel, parecem estar a vontade e se divertindo em cena. Além de tudo o que podemos dizer, cabe somente aos artistas decidirem como querem se expressar e em que tipo de obra querem estar. Não se trata de gostar ou não do espetáculo, mas de transformar cada microgargalhada em uma macroreflexão. Jérôme Bel fez sua tentativa. E toda tentativa é um convite para o nascimento de outras. Eu gosto assim.

- precisei dividir. tá remexendo aqui dentro até agora.