Sonho Alterosa é uma investigação cênico-científica-performa tiva-transviada-bizarra borrada pelo tensionamento que emerge do encontro de dois universos: a ambiência dos contos de fada e a resistência da bicha efeminada. O projeto teve início em junho de 2013 como parte integrante da pesquisa de doutorado do artista pesquisador Caio Riscado.
terça-feira, 27 de outubro de 2015
segunda-feira, 19 de outubro de 2015
Piazzoleando
Perdi-me muitas vezes pelo mar
Com o ouvido cheio de flores recém-cortadas
Com a língua, cheia de amor e de agonia
Muitas vezes me perdi pelo mar
Como me perco no coração de alguns meninos
Porque as rosas buscam em frente
Uma dura paisagem de osso
E as mão do homem não tem mais sentido
Que imitar as raízes sobre a terra
Como me perco no coração de alguns meninos
Perdi-me muitas vezes pelo mar
Ignorante da água
Vou buscando uma morte de luz que me consuma
Com o ouvido cheio de flores recém-cortadas
Com a língua, cheia de amor e de agonia
Muitas vezes me perdi pelo mar
Como me perco no coração de alguns meninos
Porque as rosas buscam em frente
Uma dura paisagem de osso
E as mão do homem não tem mais sentido
Que imitar as raízes sobre a terra
Como me perco no coração de alguns meninos
Perdi-me muitas vezes pelo mar
Ignorante da água
Vou buscando uma morte de luz que me consuma
Federico García Lorca
placas
biba
bichinha
bichona
boiola
baitola
pão com ovo
qua-qua
poc-poc
viado
viadinho
mulherzinha
menininha
frutinha
queima rosca
bichinha
bichona
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baitola
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Victor Hugo Mattos
quarta-feira, 14 de outubro de 2015
Berenice, senta aqui.
Essa história não é sobre paixão, amor, prazer ou literatura. Quando olho para trás só vejo futuro, tal qual o via nos olhos do menino. E também não é sobre refazer, reviver ou trazer a tona. Tem coisas que a gente faz porque faz. Ou melhor, porque é preciso fazer. Então também é sobre todas as coisas que eu disse que não era. Isso porque eu queria dizer umas coisas cruéis, fazer doer com as palavras, machucar o corpo. Eu queria gritar, dizer poucas e boas, chacoalhar a moral e gozar na cara da cidade. Me lambuzar todinha, cortar os pulsos, sangrar a pele e arranhar as costas.
Eu pensei em usar velas, chicote, amarras, cinto, cinta, fivela e gente gemendo. Babar umas coisas, sujar o chão, abusar de frutos estranhos e cheiros ruins. Pensei um montão de coisas desse tipo, mas isso não se parece comigo. Essas coisas não me emocionam, elas não me excitam. Acho que eu sou uma pessoa romântica, um pouco antiquada, cafona e ridícula. Um pouco bocó, do tipo que chora à toa e detesta confusão. Sabe?
Então eu decidi que vou usar flores, vou dizer umas poesias, por uma música e chorar baixinho bem ali: no canto da sala. Eu vou me deitar no chão, deixar o meu corpo pesado e, em seguida, mover os braços lentamente. Eu vou abraçar o espaço como quem abraça uma pessoa querida e esse gesto vai durar um tempo. Indeterminado. Aí eu vou descansar os braços e ficar ali quietinho, pensando, só pensando na falta que você me faz. Algumas coisas vão passar pela minha cabeça, eu sei que vou projetar imagens e tudo o que eu vou ver é concreto. Eu vou sentir o calor do seu corpo, o compasso desorientado da sua respiração e o cheiro da sua pele. Eu vou tentar te acompanhar, colar o meu corpo no seu, eu vou pensar que você é meu - só por esse instante, provisoriamente. Eu vou envolver o seu rosto com as minhas mãos, olhar nos seus olhos, tocar nos seus lábios e sorrir de levinho. Se você sorrir de volta, eu vou lhe acariciar a face, passar os meus dedos por suas sobrancelhas e na maçã do rosto. Aí eu vou beijar a sua boca, lamber a sua língua e beber da sua saliva. Você... Você vai sentir o gosto amargo do cigarro que eu acabei de fumar misturado com o doce do céu da minha boca. Eu vou apertar os seus braços e, enquanto te beijo, pressionar o seu corpo contra o meu. Eu vou calar a tua pressa com o meu suor e lhe dizer jujuba como quem diz eu te amo: e-u-t-e-o-d-e-i-o.
Depois eu vou estar no mar e de dentro d'água vou ver você na pedra enrodilhado como um fauno menino, admirando o horizonte. Você vai me dizer para olhar a lua e eu que não sei dar valor a natureza vou ficar sem graça. Nessa hora, talvez, você desista de ter filhos comigo. Mas uma sereia vai passar e o mar vai ficar agitado fazendo com que as ondas batam mais forte na pedra. A espuma da água vai respingar em você e você vai esquecer...
Aí eu vou sair do mar: nu e ereto. Vou balançar os cabelos que não tenho e me sacudir feito um cachorro hidrófobo. Eu vou latir pra você, meu bem, e vou caminhar na sua direção. Eu vou me sentar ao seu lado e nós vamos deitar na pedra juntos. E esse gesto vai durar um tempo. Indeterminado. Quando você pensar em ir embora eu vou te segurar pelos cabelos e nós vamos fazer sexo, bêbados.
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quinta-feira, 8 de outubro de 2015
Virando mochila - pré Berenice
- ãhn?
- aham
- ah, tá
- tá, eu sei
- não
- quê?
- hum
- uhum
- nunca
- 3 vezes
- mais ou menos
- um pouco
- sim
- ãnnnnnnn. sei lá
- foi
- tá.
- aham
- ah, tá
- tá, eu sei
- não
- quê?
- hum
- uhum
- nunca
- 3 vezes
- mais ou menos
- um pouco
- sim
- ãnnnnnnn. sei lá
- foi
- tá.
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Conversando com Berenice #3
As coisas, as coisas, as coisas nunca foram simples, Berenice. Por detrás de toda coisa há sempre uma coisa maior, um emaranhado de coisas embaralhadas que fazem com que a gente veja as coisas como as coisas são. Ou melhor, como parecem ser as coisas. Mas as coisas não são nada além do que foi projetado pra elas. O que eu quero dizer com isso, Berenice, é que nem tudo parece ser o que é; e tudo o que é, não é só o que parece. Compreende? Nada, coisa alguma, nada é sozinho. Tudo só é, só o pode ser porque está em relação. E é impossível definir a coisa, falar da coisa sem relacionå-la a outra coisa e assim por diante. Se cada coisa tem seu lugar, como dizem alguns, no lugar de cada coisa se alojam ainda milhares de outras coisinhas. É como se as coisas se desdobrassem para dentro delas mesmas: uma coisa carrega outra coisa, que é fruto de outra coisa que, por sua vez, só existe em razão de coisas outras. As coisas, em si, não podem ser examinadas se fora do seu contexto. Mas isso não quer dizer que precisemos buscar a origem das coisas. Assim como as coisas, suas origens também são ficções. E como toda ficção, as coisas não escapam de correntes de pensamento e/ou movimentos de construção e naturalização da história. O presente das coisas, Berenice, está para o futuro assim como continua estando para o passado. Uma coisinha de nada hoje, por exemplo, pode ser uma bomba de ontem e, na semana que vem, até deixar de ser coisa com a qual se preocupar. A verdade das coisas já é, por si só, uma falsa questão - universalizar as coisas é um projeto cruel que, para além de banalizar tudo o que é coisa, visa homogeneizar as coisas todas - coisificå-las em categorias, guetos, grupos, identidades e práticas. Ou seja, um sistema de dominação e higienização de todas as coisas. Mas nem tudo está perdido, pois as coisas resistem, Berenice, elas afirmam sua diferença, reivindicam o seu lugar, sua condição de coisa singular. Então as coisas se movimentam nessa direção. E, sabendo ser impossivel ser alguma coisa fora do sistema das coisas, as coisolas extrapolam os limites da oposição e pasam a resistir de dentro das próprias coisas. Coisas engajadas sabem que o ser coisa é sempre um estado de passagem, uma modificação, um acidente na paisagem e também no tempo. A relação espaço-temporal da coisa com as suas coisas é, então, operada como um projeto de vida, um fluxo coisa atravessado, poroso, mas consciente - a resistência como um extenso plano de negociação; onde o devir implica em prudência. Por fim, Berenice, vale ressaltar que apesar de todas as coisas, e assim como as coisas, você não está sozinha. Nós, Berenice, nós não somos minoria. Somos uma coisa inclassificável. Nós somos a multidão.
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segunda-feira, 5 de outubro de 2015
Conversando com Berenice
“Esse termo, abjeção, se refere ao espaço a que a coletividade costuma relegar aqueles e aquelas que considera uma ameaça ao seu bom funcionamento, à ordem social e política” (MISKOLCI, 2012, p. 24). A vivência da abjeção está inscrita nos corpos de todos aqueles e aquelas que não correspondem às expectativas do padrão dominante. São sujeitos que rompem com as normas de gênero, com o sistema binário generalizante, e por essa razão são cotidianamente atingidos pela violência física e simbólica gerada pela ordem sexual do presente: a heteronormatividade. Vale ressaltar que neste trabalho consideramos o termo abjeto como sinônimo da experiência que é tida como repulsiva, horrível, incompreensível, mas ainda assim catalogável. O sujeito abjeto não está além ou fora das categorias (re)conhecidas pela inteligibilidade social (JUNIOR, 2012). Explico: apesar de se desviar dos ditos “gêneros inteligíveis”, do masculino e do feminino, e ser tratado de forma inferiorizada, o sujeito abjeto não escapa de ser enquadrado pelo dominante em uma outra cela específica: a categoria de monstro. Nos limites deste trabalho, a categoria monstro, de existência rotulada como bizarra, pode ser também compreendida como um reflexo da retórica da diversidade que quer manter “cada um no seu quadrado”. A retórica da diversidade está atrelada à noção de tolerância e convívio, mantendo cada sujeito em um determinado grupo (ou gueto) criado a partir da catalogação de uma identidade ou prática sexual. Tolerar é diferente de reconhecer o outro, de valorizá-lo em sua especificidade, em sua diferença. Nesse mesmo sentido, a ideia de conviver com a diversidade também não significa reconhecê-la, pois a noção de diversidade fortalece a ideia de que uma parcela de pessoas se desvia da norma e, por isso, deve ser tolerada. Ou seja, o rótulo da diversidade só localiza o desviante porque antes considera um padrão, uma norma. E é a partir desse padrão que as outras identidades são classificadas e transformadas em monstruosas. A guetização dos corpos articula silenciosamente o plano de homogeneizar práticas e identidades, mantendo as relações de poder intocadas. Assim sendo, restam para a categoria dos monstros todos aqueles e aquelas que não se sentem representados pela política identitária universalista, que transgridem as homossexualidades já padronizadas e a ordem heteronormativa vigente. Por conta desse processo de desidentificação, esses sujeitos são desumanizados pelo dominante, relegados da sociedade e enclausurados no gueto do horror.
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sábado, 3 de outubro de 2015
Muitas.
Era fácil criar um mundo, despertencer ao já sabido para habitar o estranho, o imaginário. Esse movimento sempre me pareceu natural. Produzia rotas de fuga diárias, como quem vai ao supermercado ou escova os dentes toda manhã. Difícil mesmo era permanecer aqui, aceitar o tempo e sua complexa relação com o corpo da gente, com nossos desejos. Estar presente sem se anular, criar estratégias de sobrevivência, não ceder. Logo aprendi que seria preciso negociar, pois habitar a trama não significa dominá-la, mas justamente o oposto. É preciso saber tanto para gerar desconhecimento, acompanhar a paisagem e seus acidentes, modificar o interno por ação do externo e vice e versa.
Dançar também nunca foi fácil. Ainda mais quando se dança assim tão de lado e todo rebolado. Em um segundo sou capaz de criar um mundo pelo simples movimento das mãos. Se coloco aqui sou Frida Kahlo, um pouco pro lado princesa Léia. Posso ser um gatinho, um pato de estimação ou um tigre. Segurando um cigarro, com o rosto de lado e um breve sorriso, sou Hannah Arendt e também a enigmática Clarice Lispector - essa, sem sorrir, é claro. Com um arco feito dos próprios cabelos, sou Beauvoir. De espada na mão, Joana D`arc. Sem espada, mas não sem armas, Josephine Baker, Carmem Miranda e Chica da Silva. Sou Anita Garibaldi em cima do cavalo, Ana Cristina César em cima da janela e Rita Lee em cima do palco. Se choro, sofro como Calcanhoto, festejo como Elba e com Valesca Popozuda vou dez vezes até o chão. Passeio pelas letras, sou Breatriz Bracher, fui separada na maternidade de Verônica Stigger pois não compreendo como não somos irmãs. Sou a faca afiada do poema encardido de Angélica Freitas que deita consigo mesma para amar o outro. Sou Jacira Caio Fernando Abreu, uma saudade enorme de Marcia X que não tive a oportunidade de conhecer, mas com quem ainda travo longas conversas.
Com as mãos na cintura sou Madame Satã, balançando os braços Elis e, quando indignada, sou Vanessão. Não era só pelos vintes centavos e nem só pelos vintchy reias, quirida. Jogada no mar, camuflada entre as flores e o fogo vermelho, sou Ana Mendieta, Julia Roberts tomando banho de banheira e na garupa de João Miguel, sou Hermila virando céu. Quando gargalho ou grito alto, sou a fúria da Cássia Eller mãe, grisalha como Tempestade e boa de fogão como Dona Benta. Invento moda, sou Coco Channel, Mary Poppins de guarda-chuva, vou me embora de mala e cuia, viro memória como as Spice Girls. Sou Sandy toda cagada na festa do tatu e dentro da cabaninha sou também Punk, a levada da breca. Tarsila do Amaral, o bigode de Carlota Joaquina e as cem mil perucas e saias e bordados e sapatos de Maria Antonieta. Não te mete comigo que eu fecho com Oxum, vou turbinada em meu carro, Penélope Charmosa; eu sou a Pantera Cor de Rosa.
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