Sonho Alterosa é uma investigação cênico-científica-performativa-transviada-bizarra borrada pelo tensionamento que emerge do encontro de dois universos: a ambiência dos contos de fada e a resistência da bicha efeminada. O projeto teve início em junho de 2013 como parte integrante da pesquisa de doutorado do artista pesquisador Caio Riscado.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Tudo que vai, volta

O sonho acabou Alterosa? Penso que não. Mas me permito o luto ao constatar que aquele castelo era mesmo feito de purpurina e agora se desfez. Queria ter entrado lá ao menos mais uma vez, sou dessas de desejar muito e me conformar pouco. Mas tá tudo certo. Fico com você aqui bem perto do coração, fico com as suas imagens rondando meus sonhos mais íntimos, alterando meus batimentos cardíacos. Fico com você chorando baixinho e fico também com o meu desespero ao te ver chorar. Fico com você dizendo que abraçaria uma pessoa muito querida e dizendo o quanto ama e odeia ao mesmo tempo, fico com você ao mesmo tempo: menino e menina, monstro e serpentina, rosa e preto, coroa e pelos. Fico com você Princesa Caio encarando a plateia, se deixando ver, se dando a ver. Você se dando e se doando inteira, nua, vestida, travestida, transviada. Você é diva meu amor. E eu amo você.

- Flávia Naves

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Considerações.

Breves considerações sobre a primeira temporada de Sonho Alterosa no Reduto.

- estar em cartaz é realmente uma loucura. É preciso (re)pensar todos os dias o trajeto interior do espetáculo para que ele possa, mais uma vez, ser exterior. Tenho adotado práticas silenciosas como passar os textos no banho, passar os textos em diferentes ritmos durante alguns deslocamentos do dia como no ônibus, no táxi e na rua ou então quando passo algum exercício para os meus alunos. Gosto de passar mentalmente os movimentos, as partituras e as marcas que temos sugeridas. (re)faço o meu trajeto inteiro, todos os dias, sempre antes de entrar em cena. Tem sido bom.

- o primeiro momento em cena é realmente impressionante. Acho que não vou deixar de estar nervoso em nenhum dia. As mãos tremem, o braço fica instável e fico sentindo o balançar irritante da peruca e da coroa. Sinto que o público me vê nervoso, percebe o meu estado. Assim sendo, busco fazer um esforço enorme para justamente dividir esse nervosismo, esse não saber, essa energia que me invade em todos os dias que é preciso (re)começar. Adoto a palavra "compartilhar" como chave desse momento e trabalho sobre e com ela.

- não sei atuar. Não me sinto ator. Acho que na verdade nunca fui um profissional da atuação. Sou performer, sou corpo em fluxo, jogado no vento, explodido entre os acasos da vida e também de outros tempos. Com isso, cada formação de plateia me atravessa de um jeito. Todos os dias o espetáculo tem sido realmente diferente. Sinto que presenças afetivas entre os espectadores costumam me emocionar mais. Desconhecidos me desafiam e, quase sempre, busco os seus olhares como pontos de retorno. É sempre bom ter morada, ter para onde voltar. Nessas casos, minhas moradas preferidas são as dos olhos virgens, olhos que nunca estive e que também nunca me tiveram... Olhos desconhecidos para compor com palavras e afetos, olhos desconhecidos para atravessar. Lentamente.

- continuo sendo a mesma bicha de sempre. Flerto durante quase todo o espetáculo. O momento do chá é o meu predileto. Gosto de estar ali, sentada, com Berenice, com o bolinho, com os braços apoiados na cadeira. Me sinto a cada apresentação mais confortável, mais em casa, mais na rua, mais no tempo, mais jogado na palavra-vento-solidão. E, de novo, os olhos. São os olhos dos espectadores que literalmente fazem essa cena comigo. Se me demoro, é porque parece que tenho aval para demorar. Se passo rápido, se passo os olhos, é porque parece que machuco, que ainda não posso pousar. Se em troca do meu olhar recebo dúvida, espero, olho de novo, investigo, estudo e peço passagem. Por aqui? Por aqui é seguro? Pra mim ou pra você? Tanto faz, tanto fez. (des)caminhos.

- a recepção homossexual masculina é um capítulo a parte. Escrevo aqui só como lembrete pois jamais poderia deixar de abordar esse ponto no desenvolvimento da tese. Existe uma espécie de homosociabilidade masculina que destila erotismo, prazer e poder durante o espetáculo. Alguns me estudam, outros me devoram. Assim como também alguns me ignoram, outros me diminuem, disputam comigo sua viadice. É uma ambiência afetada, efeminada, debochada e cafona. Algumas gays choram muito. Mas seria impossível dizer em que partes do espetáculo... Isso vai mesmo de cada um, de cada história, de cada aparelho íntimo e psíquico, de cada desejo de transferência, afetação e diálogo.

- tem dias que algumas estratégias de enunciação não funcionam. Não vou listá-las aqui pois ainda não sei a razão do não funcionamento. Tenho palpites e vou continuar pesquisando sobre eles nesse último final de semana da temporada. 

- já tenho saudades do cenário, do tapete redondo e do sofá cheio de almofadas. Tem coisas que ninguém sabe. São coisas pequenas, descobertas inusitadas, atalhos, brechas. Gosto quando me vejo no espelho que comprei em SP; muitos dias faço uma careta pra Barbie sereia que fica perto da caixinha em formato de concha; aliso os cabelos da boneca do sofá e tenho inveja da bota da boneca que fica na ponto do avião; quando dialogo com Berenice no microfone do avião eu estou de olhos fechados; no sofá, o cavalo marinho é meu príncipe; sempre que deito olho para os pés do Lucas; jamais esquecerei dos olhos do Phil; tenho verdadeira coceira nos pés quando tiro os sapatos; alguns dias sinto frio durante a partitura da placa; sinto fome no ventilador e sempre penso que deveria ter bebido mais um gole dágua; morro de medo do meu colar não soltar; sempre penso que a peruca vai cair na hora do lustre e foi esse sentimento que trouxe a intonação que estou dando para essa parte específica da fala; sempre que falo da grinalda busco olhar para alguém que "pareça" ter vontade de casar (risos); na Saritinha morro de medo de esquecer o texto e em todo intervalo ou pausa me lembro do que vem logo em seguida; morro de calor com o manto da Saritinha; o saco plástico nunca deu certo mas eu prefiro assim, fica feio, fica sujo, fica errado; eu gosto dos erros.

tudo que vai, volta

Porque é corajoso pra caralho. Porque é delicado, político e transgressor sem cair em velhos ou novos chavões. Porque é surpreendente. Porque é jovial sem ser bobo. Porque tem humor e tem dor. Porque é um trabalho em equipe lindo. Porque dá vontade de ver muito mais. NÃO PERCAM!

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

tudo que vai, volta

É sobre sonhos de princesa e seu desmoronamento. Mas não se iludam mais do que a princesa: é uma rainha que está em cena. Um soberano diretor consciente de cada mínimo gesto executado com precisão na atuação de uma atriz-diva-alter-ego que ele deve admirar profundamente.
Habituado ao tom coloquial da linguagem imediata da performance, desta vez Caio Riscado experimenta servir sua intimidade à mesa do chá, com toda pompa e circunstância. É por meio do artifício que ele se desnuda neste trabalho tão especial, construído ao longo de dois anos de uma pesquisa cuidadosa que contou com o apoio indispensável de parcerias preciosas, devidamente creditadas.
Porque é Caio, em toda a sua potência, que está em cena; mas não está só. É a potência de um coletivo que celebra o encontro entre arte e vida no território do afeto, que sustenta sua mão ligeiramente trêmula na noite de estréia. Que sustenta seu salto no céu aberto da cena, onde o controle da partitura escorrega e cede aos caprichos do corpo e ao imperativo da própria cena, sempre outra por natureza.
A rainha nua revela a vulnerabilidade e solidão em preto e branco que se refugiam em seu mundo cor-de-rosa. Mas não para por aí. Entre os escombros do castelo da Disney nos encontramos todos, com as pequenas e grandes dores e perplexidades que habitam nossos corpos. E o cor-de-rosa é a reinvenção dos corpos e do nosso modo de existir no mundo.
Nos contagia, Caio. Contagia o planeta inteiro com seu sonho de amor cor-de-rosa. Porque esse mundo precisa, urgentemente, ser reinventado. E porque é o amor, o afeto, a maior das revoluções.

- Dani Fusaro

tudo que vai, volta.


Caioooo, tive que correr de lá pra sair correndo pela rua livre, tirando a roupa e me pintando num sonho rosa! Mentira! Mas sai correndo pq tinha que tirar dinheiro mesmo antes que desse as dez badaladas da noite. Enfim, queria te dar um beijo, um abraço, uma palavra viva ao vivo de que tudo o que vi não foi sonho, mas uma realidade bem construída, corajosa, delicada, convidativa à liberdade de ser. Fiquei muito feliz de sair de casa sem saber onde era o Reduto, pegando táxi, ônibus e andando trechos a pé na chuva (moro em São Cristóvão, aff de locomoção) para ver algo que realmente vale muito a pena. Já sabia que ia ser assim, vindo de você e da trupe miúda, que é gigante. Pouco saio de casa para ver teatro, não consigo quase nada. Mas ontem não vi teatro, vi vida, vi viada, vi muita vontade de mensagem, imagem, política, alumbramento. Me encantou você ter pintado de rosa (essa cor tão agradável que expande as pupilas quando somos espectadores do teu sonho) a cena carioca que anda tão cinza. Entrei no banheiro das projeções e vi lá o desenho de Mayara Rainha e você no strip das calcinhas! Fiquei feliz! Aquela música da bicha que suja a rua de sangue foi um tiro certo, muito certeiro, na mosca da realidade, da hipocrisia, da chatice do mundo: que transmute algo no mundo, no poder da voz que ecoa.
Querido, feliz demais que você tenha dado esse salto do alto da torre mais alta do castelo da Disney! Bj

- Marcelo Asth

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Piazzoleando

Perdi-me muitas vezes pelo mar
Com o ouvido cheio de flores recém-cortadas
Com a língua, cheia de amor e de agonia
Muitas vezes me perdi pelo mar
Como me perco no coração de alguns meninos
Porque as rosas buscam em frente
Uma dura paisagem de osso
E as mão do homem não tem mais sentido
Que imitar as raízes sobre a terra
Como me perco no coração de alguns meninos
Perdi-me muitas vezes pelo mar
Ignorante da água
Vou buscando uma morte de luz que me consuma



Federico García Lorca

placas

biba
bichinha
bichona
boiola
baitola
pão com ovo
qua-qua
poc-poc
viado
viadinho
mulherzinha
menininha
frutinha
queima rosca


quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Berenice, senta aqui.

Essa história não é sobre paixão, amor, prazer ou literatura. Quando olho para trás só vejo futuro, tal qual o via nos olhos do menino. E também não é sobre refazer, reviver ou trazer a tona. Tem coisas que a gente faz porque faz. Ou melhor, porque é preciso fazer. Então também é sobre todas as coisas que eu disse que não era. Isso porque eu queria dizer umas coisas cruéis, fazer doer com as palavras, machucar o corpo. Eu queria gritar, dizer poucas e boas, chacoalhar a moral e gozar na cara da cidade. Me lambuzar todinha, cortar os pulsos, sangrar a pele e arranhar as costas.

Eu pensei em usar velas, chicote, amarras, cinto, cinta, fivela e gente gemendo. Babar umas coisas, sujar o chão, abusar de frutos estranhos e cheiros ruins. Pensei um montão de coisas desse tipo, mas isso não se parece comigo. Essas coisas não me emocionam, elas não me excitam. Acho que eu sou uma pessoa romântica, um pouco antiquada, cafona e ridícula. Um pouco bocó, do tipo que chora à toa e detesta confusão. Sabe?

Então eu decidi que vou usar flores, vou dizer umas poesias, por uma música e chorar baixinho bem ali: no canto da sala. Eu vou me deitar no chão, deixar o meu corpo pesado e, em seguida, mover os braços lentamente. Eu vou abraçar o espaço como quem abraça uma pessoa querida e esse gesto vai durar um tempo. Indeterminado. Aí eu vou descansar os braços e ficar ali quietinho, pensando, só pensando na falta que você me faz. Algumas coisas vão passar pela minha cabeça, eu sei que vou projetar imagens e tudo o que eu vou ver é concreto. Eu vou sentir o calor do seu corpo, o compasso desorientado da sua respiração e o cheiro da sua pele. Eu vou tentar te acompanhar, colar o meu corpo no seu, eu vou pensar que você é meu - só por esse instante, provisoriamente. Eu vou envolver o seu rosto com as minhas mãos, olhar nos seus olhos, tocar nos seus lábios e sorrir de levinho. Se você sorrir de volta, eu vou lhe acariciar a face, passar os meus dedos por suas sobrancelhas e na maçã do rosto. Aí eu vou beijar a sua boca, lamber a sua língua e beber da sua saliva. Você... Você vai sentir o gosto amargo do cigarro que eu acabei de fumar misturado com o doce do céu da minha boca. Eu vou apertar os seus braços e, enquanto te beijo, pressionar o seu corpo contra o meu. Eu vou calar a tua pressa com o meu suor e lhe dizer jujuba como quem diz eu te amo: e-u-t-e-o-d-e-i-o.

Depois eu vou estar no mar e de dentro d'água vou ver você na pedra enrodilhado como um fauno menino, admirando o horizonte. Você vai me dizer para olhar a lua e eu que não sei dar valor a natureza vou ficar sem graça. Nessa hora, talvez, você desista de ter filhos comigo. Mas uma sereia vai passar e o mar vai ficar agitado fazendo com que as ondas batam mais forte na pedra. A espuma da água vai respingar em você e você vai esquecer... 

Aí eu vou sair do mar: nu e ereto. Vou balançar os cabelos que não tenho e me sacudir feito um cachorro hidrófobo. Eu vou latir pra você, meu bem, e vou caminhar na sua direção. Eu vou me sentar ao seu lado e nós vamos deitar na pedra juntos. E esse gesto vai durar um tempo. Indeterminado. Quando você pensar em ir embora eu vou te segurar pelos cabelos e nós vamos fazer sexo, bêbados.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Virando mochila - pré Berenice

- ãhn?

- aham

- ah, tá

- tá, eu sei

- não

- quê?

- hum

- uhum

- nunca

- 3 vezes

- mais ou menos

- um pouco

- sim

- ãnnnnnnn. sei lá

- foi

- tá.

Conversando com Berenice #3

As coisas, as coisas, as coisas nunca foram simples, Berenice. Por detrás de toda coisa há sempre uma coisa maior, um emaranhado de coisas embaralhadas que fazem com que a gente veja as coisas como as coisas são. Ou melhor, como parecem ser as coisas. Mas as coisas não são nada além do que foi projetado pra elas. O que eu quero dizer com isso, Berenice, é que nem tudo parece ser o que é; e tudo o que é, não é só o que parece. Compreende? Nada, coisa alguma, nada é sozinho. Tudo só é, só o pode ser porque está em relação. E é impossível definir a coisa, falar da coisa sem relacionå-la a outra coisa e assim por diante. Se cada coisa tem seu lugar, como dizem alguns, no lugar de cada coisa se alojam ainda milhares de outras coisinhas. É como se as coisas se desdobrassem para dentro delas mesmas: uma coisa carrega outra coisa, que é fruto de outra coisa que, por sua vez, só existe em razão de coisas outras. As coisas, em si, não podem ser examinadas se fora do seu contexto. Mas isso não quer dizer que precisemos buscar a origem das coisas. Assim como as coisas, suas origens também são ficções. E como toda ficção, as coisas não escapam de correntes de pensamento e/ou movimentos de construção e naturalização da história. O presente das coisas, Berenice, está para o futuro assim como continua estando para o passado. Uma coisinha de nada hoje, por exemplo, pode ser uma bomba de ontem e, na semana que vem, até deixar de ser coisa com a qual se preocupar. A verdade das coisas já é, por si só, uma falsa questão - universalizar as coisas é um projeto cruel que, para além de banalizar tudo o que é coisa, visa homogeneizar as coisas todas - coisificå-las em categorias, guetos, grupos, identidades e práticas. Ou seja, um sistema de dominação e higienização de todas as coisas. Mas nem tudo está perdido, pois as coisas resistem, Berenice, elas afirmam sua diferença, reivindicam o seu lugar, sua condição de coisa singular. Então as coisas se movimentam nessa direção. E, sabendo ser impossivel ser alguma coisa fora do sistema das coisas, as coisolas extrapolam os limites da oposição e pasam a resistir de dentro das próprias coisas. Coisas engajadas sabem que o ser coisa é sempre um estado de passagem, uma modificação, um acidente na paisagem e também no tempo. A relação espaço-temporal da coisa com as suas coisas é, então, operada como um projeto de vida, um fluxo coisa atravessado, poroso, mas consciente - a resistência como um extenso plano de negociação; onde o devir implica em prudência. Por fim, Berenice, vale ressaltar que apesar de todas as coisas, e assim como as coisas, você não está sozinha. Nós, Berenice, nós não somos minoria. Somos uma coisa inclassificável. Nós somos a multidão.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Conversando com Berenice #2




Conversando com Berenice

“Esse termo, abjeção, se refere ao espaço a que a coletividade costuma relegar aqueles e aquelas que considera uma ameaça ao seu bom funcionamento, à ordem social e política” (MISKOLCI, 2012, p. 24). A vivência da abjeção está inscrita nos corpos de todos aqueles e aquelas que não correspondem às expectativas do padrão dominante. São sujeitos que rompem com as normas de gênero, com o sistema binário generalizante, e por essa razão são cotidianamente atingidos pela violência física e simbólica gerada pela ordem sexual do presente: a heteronormatividade. Vale ressaltar que neste trabalho consideramos o termo abjeto como sinônimo da experiência que é tida como repulsiva, horrível, incompreensível, mas ainda assim catalogável. O sujeito abjeto não está além ou fora das categorias (re)conhecidas pela inteligibilidade social (JUNIOR, 2012). Explico: apesar de se desviar dos ditos “gêneros inteligíveis”, do masculino e do feminino, e ser tratado de forma inferiorizada, o sujeito abjeto não escapa de ser enquadrado pelo dominante em uma outra cela específica: a categoria de monstro.  Nos limites deste trabalho, a categoria monstro, de existência rotulada como bizarra, pode ser também compreendida como um reflexo da retórica da diversidade que quer manter “cada um no seu quadrado”. A retórica da diversidade está atrelada à noção de tolerância e convívio, mantendo cada sujeito em um determinado grupo (ou gueto) criado a partir da catalogação de uma identidade ou prática sexual. Tolerar é diferente de reconhecer o outro, de valorizá-lo em sua especificidade, em sua diferença. Nesse mesmo sentido, a ideia de conviver com a diversidade também não significa reconhecê-la, pois a noção de diversidade fortalece a ideia de que uma parcela de pessoas se desvia da norma e, por isso, deve ser tolerada. Ou seja, o rótulo da diversidade só localiza o desviante porque antes considera um padrão, uma norma. E é a partir desse padrão que as outras identidades são classificadas e transformadas em monstruosas. A guetização dos corpos articula silenciosamente o plano de homogeneizar práticas e identidades, mantendo as relações de poder intocadas. Assim sendo, restam para a categoria dos monstros todos aqueles e aquelas que não se sentem representados pela política identitária universalista, que transgridem as homossexualidades já padronizadas e a ordem heteronormativa vigente. Por conta desse processo de desidentificação, esses sujeitos são desumanizados pelo dominante, relegados da sociedade e enclausurados no gueto do horror.

sábado, 3 de outubro de 2015

Muitas.

Era fácil criar um mundo, despertencer ao já sabido para habitar o estranho, o imaginário. Esse movimento sempre me pareceu natural. Produzia rotas de fuga diárias, como quem vai ao supermercado ou escova os dentes toda manhã. Difícil mesmo era permanecer aqui, aceitar o tempo e sua complexa relação com o corpo da gente, com nossos desejos. Estar presente sem se anular, criar estratégias de sobrevivência, não ceder. Logo aprendi que seria preciso negociar, pois habitar a trama não significa dominá-la, mas justamente o oposto. É preciso saber tanto para gerar desconhecimento, acompanhar a paisagem e seus acidentes, modificar o interno por ação do externo e vice e versa. 

Dançar também nunca foi fácil. Ainda mais quando se dança assim tão de lado e todo rebolado. Em um segundo sou capaz de criar um mundo pelo simples movimento das mãos. Se coloco aqui sou Frida Kahlo, um pouco pro lado princesa Léia. Posso ser um gatinho, um pato de estimação ou um tigre. Segurando um cigarro, com o rosto de lado e um breve sorriso, sou Hannah Arendt e também a enigmática Clarice Lispector - essa, sem sorrir, é claro. Com um arco feito dos próprios cabelos, sou Beauvoir. De espada na mão, Joana D`arc. Sem espada, mas não sem armas, Josephine Baker, Carmem Miranda e Chica da Silva. Sou Anita Garibaldi em cima do cavalo, Ana Cristina César em cima da janela e Rita Lee em cima do palco. Se choro, sofro como Calcanhoto, festejo como Elba e com Valesca Popozuda vou dez vezes até o chão. Passeio pelas letras, sou Breatriz Bracher, fui separada na maternidade de Verônica Stigger pois não compreendo como não somos irmãs. Sou a faca afiada do poema encardido de Angélica Freitas que deita consigo mesma para amar o outro. Sou Jacira Caio Fernando Abreu, uma saudade enorme de Marcia X que não tive a oportunidade de conhecer, mas com quem ainda travo longas conversas. 

Com as mãos na cintura sou Madame Satã, balançando os braços Elis e, quando indignada, sou Vanessão. Não era só pelos vintes centavos e nem só pelos vintchy reias, quirida. Jogada no mar, camuflada entre as flores e o fogo vermelho, sou Ana Mendieta, Julia Roberts tomando banho de banheira e na garupa de João Miguel, sou Hermila virando céu. Quando gargalho ou grito alto, sou a fúria da Cássia Eller mãe, grisalha como Tempestade e boa de fogão como Dona Benta. Invento moda, sou Coco Channel, Mary Poppins de guarda-chuva, vou me embora de mala e cuia, viro memória como as Spice Girls. Sou Sandy toda cagada na festa do tatu e dentro da cabaninha sou também Punk, a levada da breca. Tarsila do Amaral, o bigode de Carlota Joaquina e as cem mil perucas e saias e bordados e sapatos de Maria Antonieta. Não te mete comigo que eu fecho com Oxum, vou turbinada em meu carro, Penélope Charmosa; eu sou a Pantera Cor de Rosa. 

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Previsão do Tempo

Ser bicha é ser enquadrado, no inciso C, do parágrafo terceiro, do artigo 24, da lei de segurança internacional, seco e de muito calor. É ter medo à flor da pele, é ter a língua ferida, a boca rubra, o beijo fácil, mas vamos ver se o tempo continua assim o amor saindo pelos poros. Ser bicha é um estado de espírito, a expectativa é de mais um dia muito quente e bastante seco em boa parte do Brasil de choque, de sítio, de graça. Como o artista pinta seu quadro, já que não temos previsão de chuva pois a massa de ar seco continua estagnada no país como a luz que filtra a janela do quarto, a lua bojuda no céu. Ser bicha: ser inspecionado, é ter revirado o passado e investigado o medo – subindo os termômetros devem chegar a marcar o cheiro saudoso dos primeiros tempos no extremo norte do país. É a polícia, acesa e trêmula no encalço do baitola amedrontado, claro índice de pouca humidade/humanidade no ar. Ser bicha é ser metade gente, a outra metade - o povo, gargalha garganta a dentro no litoral nordestino, ri e galhofeiro. A boa notícia pro no final de semana É Ter parte com o demônio, aprendiz de feiticeiro. É estar entre, no meio, ser meta-de Outros homens quando o calor dá uma amenizada e poderemos ter algumas pancadas de chuva aqui no Rio de Janeiro.

Paulo Augusto + interferências.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Rivotril?

21 de Setembro de 2015.


11h25.


Minha insônia é maravilhosa, por isso eu não posso dormir.

domingo, 20 de setembro de 2015

Tira tudo

- Sapatinho: Esquecendo o castelo...

- Coroa: A música-tema.

- Colar: Castiçais e candelabro.

- Luva (1): Veludo molhado, tafetá...

- Cabeça: E as perucas... Todas elas.

- Brinco (1): Esquece as jóias.

- Roupa de cima*: Esquece as pedras preciosas.
* Possibilidade.

- Anel: Adorado sapatinho de cristal.

- Saia: O copeiro, o jardineiro...

- Cílios: O motorista particular...

- Brinco (2): A casa de veraneio...

- Pulseira: Esquece da vontade das pessoas...

- Luva (2): Tira uma foto comigo?

- Calcinha: ... Possibilidade de reconfiguração infinita

sábado, 12 de setembro de 2015

Tudo dando errado

Cinderela

https://www.youtube.com/watch?v=FM6Fi-R2Bew

https://www.youtube.com/watch?v=ggS61GeN-dA    - 08:10 / 08:47 /

A bela adormecida

https://www.youtube.com/watch?v=oIQTZXS6MFo   -  maldição

https://www.youtube.com/watch?v=xoC1_hfWxD4 - mesma cena só que no original - "eu realmente estranhei não ter sido convidada" / "não é bem vinda" / maldição

Branca de neve

https://www.youtube.com/watch?v=937pE4xC0rU  - enfeitiçando a maçã  - melhor texto, melhor dublagem

A Bela e a Fera

https://www.youtube.com/watch?v=w7WPdwcoxdU  - texto do Gaston sobre a Fera <3 "quem for homem vai ter que lutar..." / o pai da Bela preso / Bela presa / Canção da perseguição do monstro.

mesmo trecho de cima com uma qualidade melhor: https://www.youtube.com/watch?v=uiaIwLx2C18

O corcunda de notre dama

https://www.youtube.com/watch?v=k7R_qdrNXUE - canção do padre contra Esmeralda, chamando ela de ciganada do inferno - a igreja católica rogando sua bela maldição as mulheres.

O rei leão

https://www.youtube.com/watch?v=Uahl00duAUo - Oscar e as hienas - maldição do rei. "se preparem" / "para a morte do rei" / ""fiquem comigo e jamais sentirão fome outra vez" "se preparem para o golpe do século"

A pequena sereia

https://www.youtube.com/watch?v=wmSbYG7mEvU - Ariel presa por Úrsula / Úrsula saindo gigante do mar - É incrível <3 "agora eu sou a rainha dos mares, as ondas obedecem aos meus caprichos"

Mulan

https://www.youtube.com/watch?v=RYd-vhiXCNE - "vocês não são o que eu pedi, são frouxos e sem jeito algum, vou mudar, melhorar, um por um..."

https://www.youtube.com/watch?v=FzeWTz4XfxE  - Mulan sendo preparada pro casamento, sendo puxada de um lado para o outro "uma noiva mais que exemplar, traz mais honra a todos nós" / "mas terá que ser bem calma, obediente e ter vigor, com bons modos e com muito amor, traz mais honra a todos nós"

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Conta a lenda que dormia
uma Princesa encantada
a quem só despertaria
um Infante, que viria
de além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
vencer o mal e o bem,
antes que, já libertado,
deixasse o caminho errado
por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
e orna-lhe a fronte esquecida,
verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
sem saber que intuito tem,
rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino –
ela dormindo encantada,
ele buscando-a sem tino
pelo processo divino
que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
tudo pela estrada fora,
e falso, ele vem seguro,
e, vencendo estrada e muro,
chega onde em sono ela mora.
E, inda tonto do que houvera,
à cabeça, em maresia,
ergue a mão, e encontra hera,
e vê que ele mesmo era
a Princesa que dormia.
Fernando Pessoa

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

roteiro

- prólogo
- texto alterosa - striptease 1
- intro música milkshake com glitter
- série deformações - Ana Mendieta
- mic. anuncia a música
- milkshake com glitter
- série máscara de flores + mankini

Fim

Não foram felizes para sempre,
mas foram possíveis.


terça-feira, 1 de setembro de 2015

Retrato #2 - Princesa


Liguei a TV no dia 01 de Setembro de 2015.
Ela dizia que hoje tudo mudou.
Hoje mulheres podem ser "alguma coisa que elas não são habitualmente".
E hoje homens podem ser princesas.

Será?

Fiquei pensando em Alterosa.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

roteiro de partitura

mão pra trás
direita frentre
olho: 1 - 2 - 3 - 4 -5
mão, armou - castelo
portão, braço - cintura
olhar
ponte - perna esquerda arrastando
olhar pra baixo
braços abertos - rio
pegou a saia - jardim - corrididnha / enorme - soltou a saia
braço (colorido) braço (arejado)
flores raras - mãos

não - solta
ombro / aqui

espelho
1 orquidário - cabelo
pinheiro - cabeça
fonte
deleite
chua chua pra trás no espelho
querendo...
saia, reverência

22 de agosto de 2015

18:14

Dá um nó no tempo. O corpo confundi e a cabeça inventa. Acordei fazendo planos tão bestas quanto a minha cara lhe pedindo um beijo. O álcool intensifica o processo e as questões não amadurecem. Acordei querendo gritar umas coisas, chorar uns livros. Tudo sujeira. Tudo deserto. Tudo certo. Sou pedra pouco lapidada, acordei sentindo sua falta. Uma falta criada, um vazio ficcional.

18:38

E podia ter mais. Mas eu não sei fazer poesia com vento forte. Bom sábado.

A BALADA DOS AFEMINADOS - CHARLES BERNSTEIN / TRAD. SANDRO ORNELLAS

A verdade jaz debaixo do choro
Com o medo, a casca do luto vira couro

Uma democracia adulta
Definha e se torna suja
Por brutamontes que odiar
Preferem em lugar de rimar

As quatro letras da complexidade
Para os que têm e não têm
Mentir dados de Darwin
E endeusar o que Halliburton diz

A verdade jaz debaixo do choro
Com o medo, a casca do luto vira couro

Bandidos roubam o estoque de liberdade
O rico ganha palmas, o pobre, sete palmos
E o deus que abençoa isso
Não é deus, é discurso vazio

Então seja afeminado
Assuma um jeito viado
Cante uma canção libertina
E dance com saia de menina

Poesia não vence a guerra contra o terror
Mas também não repete o erro do horror

Nós afeminados não tememos
Razão, interdependência ou incerteza
Usamos antes e depois da luta a cabeça
Rezamos por bom senso, arte e compromisso

Então seja um afeminado
Cante essa canção libertina
Maricas e altivos
Nunca fugiríamos da guerra

Afeminados mataram cristo
Diz o DVD Platinum
Judeus, negros e gays
Aguardam sua vez

Desculpe-nos, matamos seu deus
Há muito, muito tempo atrás
Mas cada soldado morto no Iraque
Mata o deus interior que ainda vive

A verdade jaz debaixo do choro
Com o medo, a casca do luto vira couro

Então seja afeminado
Assuma um jeito viado
Cante uma canção libertina
E dance com saia de menina

Bandidos roubam o estoque de liberdade
O rico ganha palmas, o pobre, sete palmos
E o deus que abençoa isso
Não é deus, é discurso vazio

Então seja um afeminado
Cante essa canção libertina
Maricas e altivos
Nunca fugiríamos da guerra

Com o medo, a casca do luto vira couro
A verdade jaz debaixo do choro

* “Girly Men” foi a expressão que o então governador da Califórnia – Arnold Schwarzenegger – usou para se referir a quem era contra a chamada “Guerra ao Terror”.


ORIGINALMENTE POSTADO EM:
http://sandroornellasblogue.wordpress.com/2012/12/30/a-balada-dos-afeminados/

domingo, 23 de agosto de 2015

Gabinete de curiosidades

obras para emoldurar

- Romero Britney, Eduardo Castelo
- Aquarela, Adriana Azevedo
- Polaroides 1, Lia Sarno (série do meu aniversário com o Lucas)
- Polaroides 2, Lia Sarno (série do Xoxotaço)
- Juntas na merda, Barbies da Barbárie (série de fotos no banheiro da Unirio)
- Guardanapo de veado

obras já emolduradas

- presente de aniversário, Natália Araújo (a moldura já é rosa. pode ser bom dar um tapa na pintura)
- presente de aniversário, Mayara Yamada (trocar a moldura preta por uma moldura rosa)


terça-feira, 11 de agosto de 2015

Da maior importância


cenário
projeção
divulgação
ação

Miau

Curitiba, sábado, 01 de agosto.

Gato Preto.

Luciano e eu sentados na mesa. Lado a lado. Uma mulher se aproxima. Ela se agacha no espaço entre nossos corpos, com as mãos apoiadas no encosto de nossas cadeiras, e diz: "olá, rapazes. Vamos fazer um sexo bem gostoso? Nós três?". Luciano sorri, abobalhado. Por um segundo eu não sei o que dizer, mas digo: "hoje não vai dar, obrigado". "Amanhã, então?" - ela pergunta com um leve sorriso no rosto. "Amanhã. Quem sabe?!" - dizemos.

Essa foi a primeira vez que me vi incluído numa possibilidade de relação heterossexual. 

Primeiro encontro com equipe.


Foto da Mayara da foto da Lia.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Olha a bicharada! Macaco solto!

Quero uma árvore cheia de passarinhos.
Quero o maior número de bichos possíveis.
Quero tucano, cobra, porco e girafa.
Tudo em cena.

UMA BICHARADA.

obs: Victor, que bom que já temos um cavalo-marinho.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Meu cu

"E nessa guerra travada contra mim, uma criança efeminada (SEDGWICK, 1991), havia um exército de afetação que poderia me salvar?"

Quando se tem quatorze anos e o seu corpo não corresponde ou obedece às pedagogias de masculinização, o embate é cotidiano. Em casa, na escola e na rua. A rua é, por excelência, o espaço onde essa marca da diferença é ressaltada sem o consolo de voltar ao lar, pedir colo e contar à mãe e ao pai as coisas horríveis que nos disseram. Demorou uns anos para eu aprender a revidar como a Paulette de Tatuagem (2013, Hilton Lacerda): “Tu descobristes o mundo?”. Transformar-se em Jacira é um processo longo, doloroso e solitário. Se quando eu era uma mocinha tivesse visto meia dúzia de vídeos no youtube e memes, Madame Satã (2002, Karim Aïnouz) ou Paris is Burning (1990, Jennie Livingston), eu não pediria a Deus pela morte, eu rezaria para ser assim, fabulosa.

Além de bicha, outra palavra temida por mim era o cu. Quando mocinha, eu não conhecia o trabalho
do professor Guy Hocquenghem, logo eu não poderia imaginar que o cu era revolucionário. Mas sempre me perguntei o porquê de tudo acabar no cu. Tomar no cu, enfiar no cu, vigiar o cu. Somos obcecados pelos “cus” alheios. Em que pese os elementos acachapantes dados ao cu, uma outra injustiça delegada ao campo da nossa reconstrução subjetiva é nos definirem como um grande cu, expelindo o abjeto e o espúrio. Que delícia poderia ser um cu não normatizado, livre de barreiras higienistas e com a atribuição de comportar todos os políticos corruptos ou indecentes de nosso país. No cu não Brasil, sempre pensava ao ouvir um “ei fulano, vai tomar no cu”. Precisamos de cus milagrosos, como o de Thiaga2, musa do Facebook. Ou o cu da Tabu, de Madame Satã" (p.103).

"É preciso muita ferveção para se levantar da cama e seguir a vida. Tomamos as ruas, botamos a cara no sol, brilhamos nas praças com purpurina e ao som de “Faraó, Divindade do Egypto... E maramaramara maravilha ê”. Mas ainda olhamos, atônitos, pessoas transhumilhadas e violentadas, física e simbolicamente. Na vala comum da memória são enterrados tantos corpos, tantas lutas e vozes...Tantos afetos que se despedaçam e viram paixões tristes. O ódio à criança efeminada ou à menina masculinizada se aproxima agora de nossos corpos adultos. Somos nós, os próximos?" (p.104).

"A homofobia tão de perto, tão do nosso lado, denuncia a nossa fragilidade e vulnerabilidade. Um mundo onde apenas o existir fora dos marcos da performance heterossexual é suficiente para que você morra. Onde o corpo revela as marcas de sua sexualidade e essas marcas podem despertar atitudes brutais, que ceifam vidas, apagam sorrisos" (p.104).

"Somos estranhas, diferentes, guerrilheiras e pão com ovo. Nossas armas são nossos corpos, nossos sonhos e nosso mundo. Descolonizar nossos corpos, nossos cus e nossos desejos. Despir-nos dos privilégios, da brancura, do consumo e do sexo baunilha são nossos desafios. Transformarmo-nos em Manas de cus, uma teia de solidariedade e de afetos anais. Buscar uma Justiça erótica, como já nos disse Gayle Rubin (1989). Que o nosso cu não nos defina, mas que nos impulsione para a vida" (p.105).

RIBEIRO, Vinicios. Meu cu faz milagre ou Je suis Jaciras.

New Queer Cinema, 2015.


quarta-feira, 8 de julho de 2015

Sonho

sonhei que a cena do texto romance era uma simulação de sexo.

o principal é conseguir fazer com que o público visualize o outro a partir da movimentação do meu corpo no espaço.

gesto como consequência do gesto do outro.

será?

Tudo rosa.




segunda-feira, 6 de julho de 2015

Hija de Perra

"Na minha infância nunca me identifiquei com este binarismo, sentia que naturalmente encaixava
em outra situação muito mais harmônica, e brinquei os jogos infantis de ambos os lados, entre
jogar futebol, brincar com barbies, beijar garotas e garotos, definitivamente minha infância foi
sensacional, plural e nunca nenhum garoto me insultou, ao contrário, tudo transcendia muito
naturalmente dentro do livre fluir da vida.

Na década de 80, aos 5 anos de idade, me inscreveram por obrigação em um colégio católico só
de homens. A situação em si me parecia bem estapafúrdia. Todas as manhãs rezava à Virgenzinha
para que me converte-se em princesa e quando meus compainheirinhos de curso brincavam de
guerra das galáxias eu era sempre a princesa Leia. Sempre que tomava a mão dos meninos aos
quais sentia atração, a professora gritava de longe “os meninos não andam de mãos dadas”... minha
mente ignorante da heteronorma não compreendia esses gritos que impediam minhas liberdades
infantis naturais"

"Soltei meu cabelo, me vesti de rainha, coloquei saltos, me pintei e era linda, caminhei até a porta,
senti me gritarem, mas os seus cadeados já não podiam me parar e olhei a noite que já não era
escura, era de lantejolas!!!"

Hija de Perra.

Interpretações imundas de como a Teoria Queer coloniza nosso contexto sudaca, pobre de aspirações e terceiro-mundista, perturbando com novas construções de gênero aos humanos encantados com a heteronorma.

Posso pular essa?

O corpo guarda tudo. Passado, presente, futuro. O corpo guarda tudo. Seu cheiro, sua boca, seu sorriso e suas dobras. Seu papo furado, seu ar intelectual, andar engraçado, quase descompromissado. Sei de cada esquina sua, cada aperto meu, todo canto nosso. Sei da rua nova, da mudança atravessada pelo tempo, dos livros ainda dentro das caixas e da mesa que volta, ainda esse mês, pra casa dos seus pais. Suco de laranja de caixinha na geladeira - eu jamais acertaria. Você me surpreende as vezes. Onde a pia faz esquina, o mármore frio, minha mão gelada e uma conversa sobre arranhões. Acho que bebi uns cincos copos dágua por medo de não saber o que dizer. Me excitei. Fiquei de pau duro.  A incerteza me desconcerta. O barulho do filtro era estranho, ele começava a gemer antes da água sair. O filtro anunciava o esforço, o trabalho, o caminho percorrido pela água até o copo. Processo de purificação - de alta qualidade - com adesivo de garantia e tudo. Tem nome esse artista? É meu você responde e eu, mais uma vez, finjo não saber o que dizer. As poltronas velhas, o verde das plantas e a luminária com dois corações - um rosa e o outro, é claro, azul. Penso em discordar, em dizer que é um objeto repugnante, que sugere uma série de mentiras sobre o amor e sobre o encontro de duas pessoas. Mas penso que encontros podem se dar com mais de duas pessoas e não digo nada. Tem duas pastas de dentes novas no banheiro mas não tem escova extra. Não recebe ninguém, a casa não está preparada para o inesperado. Diz que se eu for de noite também vai gostar. Vou só de madrugada, prefiro a escuridão. Depois da cerveja tem vinho. Não quero. Gim tônica. Quero pouco, fico louca fácil, não quero perder as imagens. Não dorme aqui que a mãe vem amanhã cedo e junto dela a avó. Não durmo. Não quero família nem apresentações. Quero seus braços, seu corpo se contorcendo, pedindo mais, suportando pouco. Os mais novos são mais resistentes. Do que ele está falando? Os quadros no chão revelam a ideia de uma decoração que ainda está para ser. Tudo lá é assim, muito diferente de como é aqui. Lá tem cara de projeto, aqui tem cara de agenda. Seu cabelo está grande, ouve essa música aqui, não gosta da nova rainha dos raios. Diz que sou bem vindo de volta, que pensou muitas vezes nisso - nisso de nos termos de novo. E você, pensou? Na hora não lembro, não sei, não sei se prefiro lembrar que um dia... Cinco e quarenta da manhã. O tempo sempre passou depressa com a gente. Nunca vou me esquecer da primeira vez que lhe deixei ir embora, da carona no carro, da traição na piscina e do flerte quase infantil no supermercado. Eu nunca gostei de arranhões mas você me diz com tanta certeza que eu quase acredito, mudo de opinião. Todas as tatuagens eram novas apesar do desbotado das cores. Você devia ter cortado o cabelo essa semana. Pede um táxi, me ensina o caminho, péra, não precisa. Aqui é perto dá pra ir andando. Vou de táxi, cê sabe. Amanhã a gente vai no fazendinha, vê se aparece. Vejo. Apareço. Desço de escada. O porteiro tem o rosto deformado mas é lindo. Meu dels, que homem lindo. Ele sorri, eu digo bom dia. Ele diz que tá frio essa manhã. Eu sinto.